Todo tesouro tem seu guardião. ''Aí, não! Aí, ninguém entra!'', estaca, barrando a passagem do quarto-ateliê, a restauradora de obras de arte Stella de Mendonça. ''Mas olhe para os lados: não é mais interessante?'' Com o queixo, aponta as paredes que a rodeiam - ali, na pequena sala e no corredor, está exposto um acervo da pintora Anita Malfatti maior que o de qualquer museu do mundo: são 42 quadros, gravuras e desenhos, escondidos no apartamento de três cômodos, em algum lugar da zona sul de São Paulo. Dentro do ateliê, outras 35 obras - mas essas, até que estejam restauradas, ninguém poderá ver.
Stella, aos 49 anos, é a restauradora oficial da obra de Anita Malfatti, que produziu cerca de 3 mil quadros entre 1909 e 1964. Desde 1982, quando realizou seu primeiro trabalho - já estreou com obra de Anita, a gravura Lucy Shalders, de 1910 -, Stella calcula já ter restaurado mais de 150 obras da pintora. Consta ainda do seu currículo o restauro de obras de Salvador Dalí, Pablo Picasso, Cândido Portinari, Toulouse Lautrec... ''O coração vai aos pulos, mas a mão não pode tremer.''
Desde 2004, esta profissional - que salva obras históricas do verniz oxidado, dos ácaros e dos rasgões - guarda o acervo de Anita Malfatti no apartamento acanhado, de menos de 70 metros quadrados, onde trabalha e mora. Olhando de fora, ninguém poderia imaginar. Nem meus vizinhos sabem o que há aqui'', conta.
Para entrar no apartamento, é necessário conhecer os meandros mais restritos do círculo artístico da capital - na verdade, além de familiares, apenas marchands e colecionadores batem à porta, para negociar o preço de uma obra ou solicitar uma restauração. ''Por questão de segurança, é um lugar reservado'', comenta.
Nas paredes recém-pintadas - de verde e branco, cores preferidas de Anita Malfatti - ficam penduradas relíquias da pintora, que ajudam a contar a história da arte no País. Próxima da janela da sala, a obra mais rara atualmente no acervo: a Sinfonia Colorida, de 1916, exposta na polêmica mostra de 1917.
A tela famosa, que aguarda, pendurada na saleta de menos de 20 metros quadrados, a revisão no último restauro, está avaliada em R$ 3 milhões. Atrás da porta da sala, outra relíquia: avaliada em R$ 18 mil, fica a gravura Árvores Japonesas - ilustre representante da Semana de 22. ''Às vezes, me sinto morando em um museu'', suspira a restauradora. ''Mas é tanta história que não saberia mais viver em outro lugar.''
Outra figura de destaque no acervo de Stella é o quadro São Paulo Apóstolo,
pintado em 1955, avaliado em R$ 800 mil e pelo qual Stella nutre especial predileção - em oposição aos críticos de arte, que preferem as obras da Anita do início da carreira, expostas na Semana de 22, com influências da primeira fase do expressionismo alemão. ''Anita tomou a liberdade de pintar o que sentisse. Assim o fez a vida inteira, pintou o que quisesse, quando quisesse. Não seguiu escolas, era autêntica'', defende a guardiã, sentada em uma das cadeiras que ficam no centro da sala - exatamente as mesmas em que estiveram sentados os convidados de Anita Catharina Malfatti, na sua primeira exposição individual, em 1914.

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