O fantasma da ópera senta-se diante do órgão de tubos e a Tocata e Fuga de Johann Sebastian Bach ecoa dentro da cabeça do espectador. A cena do filme de Terence Fisher, que popularizou esse tema de Bach, dá uma idéia de toda a imponência do som do órgão. Mas quem já esteve diante de um instrumento desses garante que a sua força só pode ser conferida ao vivo. Infelizmente, são poucos os que têm acesso a uma apresentação dessas.
Os londrinenses já tiveram, um dia, o privilégio de assistir às missas da Catedral ao som de um órgão de tubos. Depois de uma série de desventuras (ver box), porém, esse instrumento foi parar na Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 2006. Em abril deste ano, o organeiro Manfred Worlitschek foi chamado para avaliar se valeria a pena restaurar o instrumento - a resposta foi positiva. Worlitschek chegou a montá-lo parcialmente em um canto da Casa de Cultura. Mas, tão logo o maestro foi embora, chegou a notícia de que a Casa precisaria ser desocupada. No começo do mês, o órgão foi novamente desmontado. Para onde vai? Ainda não se sabe.
Considerado de porte pequeno para médio, este órgão se assemelha àqueles que Haendel usava para concertos de música de câmara. Com 504 tubos, quatro metros de largura e de comprimento e oito de altura, o órgão precisa de um espaço mínimo de 72m2 e dez metros de altura para ser alocado.
Para a diretora da Casa de Cultura, Janete El Haouli, o ideal seria que o instrumento fosse para um local permanente. ''Enquanto estiver à frente da Casa de Cultura, não vou autorizar a montagem se for só para conserto, sem ter essa definição'', afirma, raciocinando que ''apenas o conserto para não fazer concerto não adianta''.
Por telefone, o organeiro relatou à FOLHA que encontrou o órgão em um estado aparentemente de fácil recuperação, mas, como o motor estava quebrado, não foi possível fazer uma análise mais aprofundada. E foi enfático: ''Não consertar é uma opção. Se houver vontade, sempre será possível recuperar.'' Nascido na Alemanha, Worlitschek observa que o brasileiro tem uma sensibilidade muito grande em relação ao instrumento. ''Tenho certeza que esse tipo de música teria uma abertura muito grande entre os brasileiros se estes o conhecessem melhor'', assegura.
Também favorável à recuperação do instrumento, o coordenador de música histórica da Casa de Cultura, Elimar Plínio Machado, enumera várias razões para se investir no conserto, dentre elas o fato de ter sido construído por um fabricante brasileiro e fazer parte da história da cidade.
Como cada instrumento tem suas especificidades técnicas, e tocar um órgão desses é bem diferente de tocar um piano, um cravo ou um teclado, Machado indica a possibilidade de se trazer professores de fora para tocar e ensinar. ''Além disso, o professor Hélcio Muller se propôs a fazer um trabalho de recuperação do instrumento como um projeto didático, sob a orientação de organistas'', sugere.
Machado avalia que o atual órgão é pequeno para a amplitude da Catedral, mas que outras igrejas em Londrina também poderiam abrigá-lo. ''Mas, além de concertos e missas, seria importante que o instrumento ficasse disponível para projetos de ensino'', aponta, reconhecendo que ele próprio tem grande interesse. ''É possível fazermos dois tipos de afinação. Assim, pessoas poderiam vir de outras cidades para ouvir desde cantatas de Bach como obras mais modernas'', planeja.
E por que investir tanto (o total do conserto poderia chegar a R$ 40 mil, segundo Machado) em um instrumento velho? ''O órgão de tubos é um instrumento nobre que, com sua imponência, amplia a idéia da grandiosidade de Deus. Para as pessoas, é um prazer ouvir, e essa sensação não é possível através de gravações apenas'', garante Machado.
A diretora da Casa de Cultura complementa que a cidade carece dessa experiência da música sacra histórica dentro dos espaços religiosos. ''Fui assistir a uma missa na Catedral da Sé em São Paulo, e foi uma experiência única. O corpo reverbera, a alma vibra, independentemente da orientação religiosa de cada um. É uma experiência que transcende tudo isso'', descreve Janete, para concluir: ''As pessoas estão habituadas ao consumo rápido, fácil e descartável, mas precisamos ser alimentados esteticamente e espiritualmente também.''

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