Um território sem controle
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quarta-feira, 21 de março de 2001
Agência Estado 
Patrick Tierney começou a estudar os Yanomamis em 1989, quando esses índios já estavam envolvidos na guerra do ouro na Amazônia. Mineradores entravam e saíam da região, sem qualquer controle das autoridades. Helena Valero, mulher branca que viveu meio século entre os indígenas daquela região, dá depoimentos sombrios sobre a disputa de interesses por lá.
Depois de um longo período de paz que terminou em 1956, começou a violência. Entre outros conflitos, o antropólogo Burquelot enlouqueceu e tentou matar o antropólogo Jacques Lizot. Há muito tempo, os europeus tinham introduzido a banana na Amazônia, e os Yanomamis a cultivaram em seu território a partir de 1800. Hoje eles são o único povo que pratica essa monocultura no mundo. Porque alimentaram-se insuficientemente por muitos séculos, os Yanomamis são os menores índios do Novo Mundo. Somente os pigmeus Ituri, da África Central, são menores que eles. Mas os Ituri são muito mais felizes.
Vivendo em grupos separados, sem uma autoridade central, o último chefe índio Yanomami foi o célebre Ajuricaba, rei de toda a nação por volta de 1720, antes do grande massacre levado a cabo pelos portugueses. Em 1941, pela primeira vez um avião sobrevoou aldeias da região, e os índios imaginaram que estavam vendo Omawe, o Criador. A mulher branca Helena Valero, que foi casada com um índio local, dá detalhes dessa conquista. Seu marido Fusiwe foi quem trouxe o sarampo para as aldeias Yanomami, depois de visitar acampamentos abandonados durante a guerra pelos americanos, nas margens dos grandes rios na floresta. Os Yanomamis foram devastados pela doença, que depois tornou-se endêmica.
Em 1968, o célebre geneticista James Deel, quase idolatrado por Chagnon, usou nos índios uma vacina que havia sido condenada por médicos europeus como perigosa. Para Tierney, ele fez dos Yanomamis cobaias humanas. O fato é que uma nova epidemia abateu-se sobre os índios da região, e subdividiu ainda mais aquele povo em grupos isolados. Embora seja um livro recente, Treva no Eldorado já tem uma história de prêmios, de desmentidos indignados e de processos. Muitas de suas denúncias parecem ter fundamento, mas vários dos seus argumentos parecem remanescentes da Guerra Fria, por sua linguagem apaixonada e pelo quixotismo dos seus argumentos.
A ele, como a Chagon e Deel, podem ser aplicados os argumentos do livro de Derek Freeman Margaret Mead em Samoa para quem a célebre antropóloga pintou a vida em Samoa a partir de uma projeção de suas fantasias utópicas. Nos últimos 40 anos, aliás, os especialistas e interessados nos estudos antropológicos tornaram-se um tanto céticos a respeito da objetividade da sua disciplina. O efeito do observador, segundo o qual a mera presença de uma fita gravadora ou de notas sendo tomadas por estranhos entre povos ditos primitivos, alteram basicamente seu comportamento e sua realidade. Os Yanomamis já completaram três décadas de convivência com intrusos. Agora é difícil saber se ainda resta alguma coisa neles de sua verdade original.
Trevas No Eldorado - Como Cientistas E Jornalistas Devastaram A Amazônia (Darkness In El Dorado - How Scientists And Journalists Devastated Amazon), de Patrick Tierney. Editora W. W. Norton, 416 págs., R$ 73,51.


