Nomes da dança nacional e internacional estarão reunidos na terceira edição do Festival Internacional de Dança (FID), evento que começa hoje em Belo Horizonte. Além dos espetáculos, o FID realizará duas palestras, uma exposição, quatro oficinas e o lançamento de dois livros. A principal inovação do FID para este ano é a criação do ‘‘Território Minas’’, uma mostra de trabalhos desenvolvidos na atualidade por coreógrafos mineiros.
DivulgaçãoO Vis Grupo de Dança Contemporânea mostra ‘‘Palpa a Carne Sobre os Ossos’’ no FID: trata-se do primeiro espetáculo do trioCinco companhias brasileiras e três internacionais apresentarão oito montagens até o dia 6 de dezembro. A abertura está marcada para as 19 horas de hoje, com dois espetáculos no teatro Francisco Nunes: ‘‘Palpa a Carne Sobre os Ossos’’, do Vis Grupo de Dança Contemporânea, de Belo Horizonte, e ‘‘Um Alarme Para o Silêncio’’, do também mineiro Joaquim Elias (ambos serão reapresentados amanhã). Às 21 horas, no Teatro Sesiminas, é a vez dos holandeses da Dance Company Leine & Roebana apresentarem ‘‘If We Could Only Even If We Could’’ e ‘‘Tales of Eversion’’ (reapresentação amanhã).
A programação traz ainda ‘‘Pessoa e o Rio’’, de Tarcísio Ramos Homem (dias 2 e 3/12), e ‘‘Lar Doce Lar’’, da C.Wlapkróclin.Dança (2 e 3/12) - ambas de Belo Horizonte; ‘‘Favela’’ e ‘‘Homenagem ao Corpo’’, da Cia. de Dança Balé de Rua, de Uberlândia (4/12); ‘‘Ai, ai, ai’’, de Marcelo Evelin - Brasil/Holanda (1º e 2/12), e ‘‘Rosso’’, de Emio Greco - Itália/Bélgica/Holanda (5 e 6/12).
Os grupos nacionais fazem parte do Território Minas. Dois participantes - Joaquim Elias e Tarcísio Ramos Homem - foram contemplados no sistema de co-produção do FID, que visa difundir talentos na arte coreográfica de Minas Gerais e estimular a produção local.
DivulgaçãoA companhia de Joaquim Elias apresenta uma co-produção com o FID: intenção é incentivar novos talentos através do festivalA diretora artística do FID, Adriana Banana, que também é coreógrafa e idealizadora do evento, disse em entrevista à Folha2 que um dos destaques deste ano é a Dance Company Leine & Roebana, da Holanda. ‘‘Apesar de ser formal, o trabalho da companhia é superinteligente. Eles não precisam fazer um espetáculo sangrento ou colocar alguém pelado em cena para conseguir um espetáculo de intensidade. Eles não são frios, nem distantes: são ardentes. E é isso que faz a diferença’’, completa.
A dança dos coreógrafos holandeses não toma por base o abdômen como centro orgânico, a partir do qual se permite que todas as partes do corpo se movam. A indisciplina desse dançar faz com que todos os membros sejam independentes. É o que eles chamam de ‘‘esquizofrenia física’’.
Adriana Banana cita ainda como destaque do FID 98 o trabalho do italiano Emio Greco, que apresenta a peça solo ‘‘Rosso’’, da trilogia ‘‘Fra cervello e movimento’’.
As três companhias que se apresentam hoje têm estilos próprios de trabalho. Criado em 1997 pelos bailarinos/coreógrafos Lilian Oliveira, Guilherme Machado e Márcia Neves, grupo Vis tem como proposta elaborar um vocabulário próprio de movimentos, sem abandonar as diferenças que permeiam as técnicas e experiências corporais de cada integrante do grupo. Em ‘‘Palpa a Carne Sobre os Ossos’’, primeiro espetáculo do trio, o Vis manifesta o desejo de arriscar e experimentar para superar os limites. Assim, eles se propuseram a trabalhar com três cubos (seres) de concreto para se perguntar como é ‘‘tocar’’. Surge então a busca para tornar palpáveis, ágeis e móveis os seres cúbicos imóveis em concreto áspero, tentando e querendo ser revestidos por músculos e ornados com vísceras.
Já o espetáculo de Joaquim Elias, ‘‘Um Alarme para o Silêncio’’, é inspirado no poeta mato- grossense Manoel de Barros. A idéia é estabelecer os contornos de personagens que vivem no rastro das coisas pequenas, aparentemente inúteis. A montagem é marcada pela presença constante de dualidades, expressas em temas como infância/velhice, sonho/realidade, luz/sombra. No palco, Joaquim Elias, a bailarina Margô Assis e a artista plástica suíça Aryanne Perrottet interligam-se, tendo como ponto em comum o gosto pelas coisas simples, expresso em situações oníricas, táteis, olfativas e visuais. O coreógrafo Joaquim Elias é bailarino integrante do grupo mineiro Ur=H0r.
O terceiro espetáculo da noite traz duas coreografias da Dance Company Leine & Roebana, da Holanda. ‘‘If we could...’’ reflete as tormentas de um corpo incapaz de seguir a cabeça que o comanda. O ponto de partida é a dança que gera seu próprio ritmo, acompanhada apenas pela estrutura musical. ‘‘Tales of Eversion’’ trata da individualidade na dança e de como o dançarino a expressa.
Leine e Roebana desenvolveram um idioma único na dança, baseado em uma nova abordagem da simetria, ritmo e composição. O trabalho da dupla questiona a dinâmica de uma sociedade em que as pessoas cada vez mais se tornam parte de uma estrutura complexa, enquanto sua autonomia, livre arbítrio, integridade e sanidade são colocados em risco. Seus espetáculos investigam a crescente ameaça de desorientação numa realidade manipulada, ditada pela mídia e pela falta de discernimento entre fato e ficção.

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