O maior legado deixado pela atriz, diretora e dramaturga Maria Clara Machado foi a perseverança. Por acreditar excessivamente no poder transformador do teatro, Maria Clara não deixava se abater pelas dificuldades. A cada ano surgiam novos obstáculos, tanto na parte financeira para a manutenção da escola e teatro O Tablado, fundado em 1951, como no lado criativo. Existia uma aura de ingenuidade na forma quixotesca com que dirigia a escola. Nos últimos tempos, com a chegada implacável do câncer, ela se retirou de cena, sorrateiramente. Ficou espiando das coxias até a cortina se fechar completamente.
Sediado no Rio de Janeiro, O Tablado fica esprimidinho na Rua Lineu de Paula Machado, próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas. Para chegar até lá, é preciso passar por uma pequena ponte. Quando se entra naquele espaço, leva-se um susto. É tão pequeno e acanhado. O Tablado lembra um monastério, tamanha a simplicidade do local. Sobrevive há décadas de forma franciscana. Tudo é comedido, limitado ao essencial. Maria Clara Machado e sua trupe de fiéis seguidores não precisavam de muito. Apenas de um palco, uma platéia e muita imaginação. Era possível encontrar na platéia jovens senhoras que subiram ao palco com ‘‘Tibobó City’’, ‘‘O Cavalinho Azul’’, ‘‘Aprendiz de Feiticeiro’’, e tantas outras peças, agora levando seus netos para assistir às encenações. O ciclo de formação de platéia se renovando.
Com sua didática baseada na improvisação, Maria Clara Machado atraía jovens de classes sociais diferentes. Colocou no mercado de trabalho atores que se tornaram estrelas. Mas era a figura catalizadora da mulher pequena de voz rouca que mantinha a seiva da frondosa instituição como exemplo de resistência cultural. Além dos textos teatrais, outra importante contribuição para a formação de atores foi a publicação, desde 1956, dos ‘‘Cadernos de Teatro’’, elemento essencial para o fomento do teatro no Brasil
É impossível dissociar o nome Maria Clara Machado da peça ‘‘Pluft, o Fantasminha’’, seu maior êxito. Não fosse o desprestígio do teatro infantil, ela teria um reconhecimento superlativo em todo o mundo. ‘‘Pluft...’’ foi encenado em todos os continentes, nos mais inatingíveis idiomas. ‘‘Pluft...’’, portanto, tornou-se um clássico universal. Nesse texto está sedimentado sem arabescos literários o maior medo infantil: a solidão no mundo sem tamanho. A peça é uma fábula sobre o medo, que marcou a imaginação de crianças de todo o País. Nesse questionamento, o garoto-fantasma procura o suporte materno para garantir que não está sozinho. Encontra apoio na amizade da menina Maribel e dos marinheiros João, Sebastião e Julião. Para os órfãos da mãe do Pluft, fica a indagação feita por um fantasma ingênuo: ‘‘Mamãe, gente existe?’’.

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