Um tempo parado no tempo
À medida que os cavalos, charretes e caminhadas de até três horas, pelas dunas, foram cedendo lugar às pick-ups, bugues e pequenos caminhões, Jericoacoara foi abandonando o título de paraíso dos hippies. Nos 20 anos seguintes, as casas de taipa deram lugar a pousadas de alvenaria, chegou o supermercado, o correio, em 2000, foi a vez da luz elétrica, depois veio o telefone e até as antenas para celulares.
Mesmo com todo o avanço, a comunidade soube preservar a beleza rústica do local em suas ruas de terra e areia e nas construções com apenas um pavimento, seguindo as características das casas de pescadores. Isso aqui é mágico. Eu entro no supermercado compro sabonete, queijo, refrigerante e quando saio, encontro uma vaca passando, bem devagar. Nunca tinha visto isso antes, diz a turista belga, An Jolobs, 27.
Toda esta rusticidade acaba por contaminar o visitante, que a cada dia se torna um pouco mais despojado e se entrega ao ritmo do local. Enquanto o idioma ouvido nas ruas é o mais variado possível, devido ao número de alemães, israelenses, franceses, belgas, espanhóis etc, o tipo de roupa usado nesta babilônia praiana varia muito pouco. Independentemente da nacionalidade e cultura, em Jeri impera o short, camiseta, biquíni e calção de banho. Já nos pés, o mais comum é não usar nada.
Esta é uma das poucas cidades que conheço em que você pode andar descalço pelas ruas confortavelmente, sentindo a areia e a terra entre os dedos como se estivesse caminhando na praia. Este povo que fala em calçar as ruas aqui deve ser maluco. Eles não têm noção do que estão fazendo, as ruas de terra fazem parte da beleza do local, da liberdade de não precisar de sapatos, diz Ro, uma hippie que mora há quatro anos na região.
Para a moradora, quem caminha descalça pela cidade corre um risco maior de absorver as energias de lá e se contaminar com o ritmo local. Aqui, hora marcada, só para ver o nascer e o pôr-do-sol. Aliás, ao final da tarde, dezenas de pessoas sobem à duna do Pôr-do-Sol para revenciar o fim do dia em longas sessões de yoga, ou simplesmente para assistir ao espetáculo que se repete, mas não perde o encanto nem a platéia.
Entre um momento e o outro, a ordem é passear pelas dunas a pé ou de bugue, descê-las equilibrado em uma prancha de sand-board, ou dando cambalhotas, e, quando a proeza se mostrar impossível, andar a cavalo, passear de catamarã, ou simplesmente deitar na rede e esperar o tempo passar. À noite, a programação fica por conta dos bares e do forró, tudo iluminado por lampiões e pelas estrelas.
O mais intrigante e quase contraditório é que, apesar de todo este convite ao lazer e ao ócio, o local está se tornando também sinônimo de chance nova para quem não consegue se adaptar ao ritmo e ao mercado dos grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, ou Porto Alegre. Ainda existe muita oportunidade aqui, principalmente para quem não tem diploma, mas possui alguma habilidade especial. Até pouco tempo, Jeri não tinha chaveiro e tínhamos de ir até Jijoca quando quebrava uma chave. Apenas há poucos meses, chegou também o Sérgio para fazer pequenos reparos e consertos em carros, diz a comerciante e proprietária de pousada Raquel.
Raquel lembra que, em fevereiro, o irmão foi visitá-la e os dois organizaram uma noite de sushi em um restaurante local. Chegou a fazer fila na porta. Repetimos a façanha mais algumas vezes. Ele chegou a ganhar R$ 200,00 reais por noite, diz. Animada com os resultados, uma amiga, que possui uma pizzaria em Jeri, ofereceu a casa às segundas-feiras, quando o restaurante fica fechado, para que o sushi man a ocupasse.
Com as possibilidades de trabalho, o ar puro, a praia e a falta de correria, congestionamento, violência e estresse, não é raro conhecer famílias que se transferiram em massa para a região. Eu cheguei há 4 anos e me instalei. Depois, vieram os filhos, a irmã e os sobrinhos, diz Marilena Sampaio, 49.
O mesmo caminho pode ser seguido pela família de Raquel, que pensa em convencer o pai (aposentado) e um tio desempregado a se transferirem para a região e montar um negócio. A idéia é que trabalhem aqui com que o trabalhavam em São Paulo e que é uma grande carência na região. Não vou falar o que é, porque senão alguém vem antes e faz o mesmo, diz Raquel.
Ao mesmo tempo em que abre oportunidades, este paraíso ecológico que há pouco mais de um mês virou Parque Nacional, pede também que a ambição financeira fique fora de suas fronteiras. Não se vem para cá para ficar rico, mas para ter qualidade de vida e esperança de um futuro sem privações, diz o pipoqueiro Leandro Ghel Fond. Há oito meses em Jericoacoara, Leandro lembra que no ano passado, quando ainda morava em Mogi das Cruzes, no interior paulista, e trabalhava no Bom Retiro, bairro da região central, no ramo de confecções, gastava só em transporte cerca de oito horas diárias. Eu não tinha tempo para nada. Só trabalhava e, o pior, no caminho para o trabalho via nas ruas e calçadas de SP um monte de criança largada, fumando crack. Aqui, você não vê isso, as crianças são espertas e de bom coração. Foi isso que me conquistou, diz.
O lado financeiro e a carreira ficaram para trás, mas o pipoqueiro não reclama. Olha, tá dando para pagar o aluguel. Só não estou melhor porque eu mais dou pipoca do que vendo. Sabe como é, não dá para recusar um saquinho de pipoca para uma criança, mesmo quando ela não tem dinheiro, diz.





