A grande novidade de ‘‘Jackie Brown’’, que acaba de chegar às locadoras, é a mudança no estilo da direção. O filme mostra um Quentin Tarantino menos violento e mais humano. Ao contrário de ‘‘Cães de Aluguel’’ e ‘‘Tempo de Violência’’, que exageravam nas situações reais até que elas se tornassem intrigantes caricaturas, esta nova produção de Tarantino é mais parecida com o ritmo de vida das pessoas comuns: lento, cool e, acredite se quiser, às vezes chega a ser doce. Porém, absolutamente imprevisível. Afinal, estamos falando de um cineasta que foge aos padrões hollywoodianos.
A história é uma adaptação do livro ‘‘Ponche de Rum’’, de Elmore Leonard, que tem como protagonista a comissária de bordo Jackie Brown (Pam Grier). Ela usa a profissão para fazer o tráfico de dinheiro entre Estados Unidos e México, vivendo no limite da criminalidade. Cansada dessa situação, Jackie resolve aplicar um golpe no traficante de armas Ordell Robbie (Samuel L. Jackson) para quem trabalha, garantindo, desta forma, sua independência financeira. Para colocar em prática seu plano, ela conta com a ajuda de Max Cherry (Robert Forster). Os dois, definitivamente, roubam todas as cenas do filme.
Outra característica de Tarantino é tirar atores do ostracismo. Em ‘‘Tempo de Violência’’, além de ressuscitar a carreira de John Travolta, ele resgatou do limbo Samuel L. Jackson. Um ótimo ator que só atuava em peças tão longe da Broadway que parecia estar, virtualmente, além do Rio Hudson. Em ‘‘Jakie Brown’’, o cineasta volta a reabilitar a carreira de outros dois grandes atores que estavam desaparecidos de cena: Pam Grier, rainha dos filmes black dos anos 70 e Robert Forster, que havia trabalhado com John Huston em ‘‘O Pecado de Todos Nós’’. Ele fazia o papel de um jovem que despertava a homossexualidade camuflada do personagem interpretado por Marlon Brando.
‘‘Jackie Brown’’ com seu ritmo lento, é repleto de cenas teatralizadas, uma herança da experiência do diretor com as produções da Broadway. As cenas de Pam Grier caminhando pelo aeroporto ao som de uma trilha sonora escolhida a dedo, mostram um Tarantino mais amadurecido e estilizado. O diretor deixou de fazer apenas a espetacularização da violência para se preocupar com o lado humano de seus personagens. No lugar de explosões de sangue, o diretor procurou dar mais ênfase à solidão e à amargura dos que vivem à margem da vida.
Além de ser o filme mais intimista de Tarantino, ‘‘Jackie Brown’’ não deixa de ostentar as características marcantes do cineasta: fascinação pelo submundo, diálogos cintilantes e uma narrativa não-linear. A fita também é salpicada por excelentes cenas secundárias e por ótimas atuações periféricas como as que trazem Robert DeNiro,
Bridget Fonda e Michael Keaton. Ambientado nos anos 90, ‘‘Jackie Brown’’ evoca o clima e a nostalgia dos anos 70, lembrando as produções blacks que fizeram sucesso naquela década. Lançamento da Paris Filmes. Duração: 154 minutos.DivulgaçãoRobert DeNiro e Samuel L. Jackson estão juntos em ‘‘Jackie Brown’’, de Quentin TarantinoCelso Mattos

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