ReproduçãoAl Pacino: inesquecível no papel de Frank Slade em ‘‘Perfume de Mulher’’Graças à marcante interpretação de Al Pacino, ‘‘Perfume de Mulher’’ (atração hoje no SBT, às 21h40)), dirigido por Martin Brest, é um filme agradável de se ver. Com cerca de meia hora a menos e um final reescrito, seria até inesquecível. Como está, no entanto, é um trabalho digno, mas passa muito ao largo do restrito clube das obras-primas.
Pacino interpreta Frank Slade, brilhante ex-coronel cuja carreira militar foi abortada por um estúpido acidente. Agora cego, amargurado e vivendo em New Hampshire com parentes, Slade planeja liquidar sua vida atormentada em estilo pomposo: após um derradeiro e hedonista fim de semana em Nova York - no Waldorf Astoria, regado às melhores safras -, ele pretende vestir o uniforme pela última vez e casualmente estourar os miolos.
O cúmplice involuntário dos planos de Slade é Charlie Simms (Chris O’ Donnell), diligente (e necessitado) estudante do Baird College. Charlie, que já tem problemas pessoais de sobra - ele testemunhou um incidente envolvendo outros estudantes e pode ser expulso se não revelar o que sabe -, imagina que vai levar facilmente 300 dólares como uma espécie de baby-sitter do problemático Slade, durante o feriado de Ação de Graças. Ao contrário, ele vai se colocar no centro de um furacão. Mais precisamente: embora fora de seus planos imediatos, Chris vai trombar de frente com a maturidade durante o tour em Manhattan.
InverossímilA maioria das aventuras que ocorre com Frank e Chris não chega a ser verossímil. Pacino, entretanto, incorpora seu personagem com tamanha paixão e com tal convicção que o espectador não tem outra alternativa a não ser deixar de lado o ceticismo e se deliciar com os passos de um tango às escuras, ou com um tresloucado teste-drive a bordo de uma Ferrari, ou simplesmente com seu incessante praguejar contra a própria sorte. Os diálogos oscilam da perspicácia e do comedimento até o mais abusivamente sentimental. E praticamente não há uma estrutura dramática de que se possa falar. Apesar disto, novamente Pacino, com elogiável suporte de O’Donnell, incentiva o espectador a fazer vista grossa diante desses problemas. Só não consegue mesmo salvar do descrédito a parte final no Baird College, seriamente comprometida por uma forçada solução moralizante tirada da cartola. O Oscar, como se vê, foi pelo trabalho dobrado do ator, que sustenta com excepcional bravura um filme que está qualitativamente distante de seu modelo original italiano, o belísssimo ‘‘Profumo di Donna’’, realizado em 74 por Dino Risi.

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