Milton DóriaAdriano Garib: ‘‘Até agora eu já fui chamado para fazer um empresário, um cigano, um fdp, um italiano gente boa...’’De Londrina, ele foi para São Paulo. Era início de 95. Lá poderia ficar mais próximo do filho Gabriel e, de quebra, continuar atuando na temporada paulistana da peça ‘‘A Tempestade’’, montada pelo grupo londrinense Armazém e que contou com a participação esplendorosa de Paulo Autran. Depois da temporada, turnê pelo País e, consequentemente, fim da maratona teatral. Foi aí que o ator Adriano Garib se deu conta de que estava realmente em São Paulo. ‘‘De repente eu me vi em São Paulo dependendo do mercado de São Paulo’’- conta ele.
Currículo debaixo do braço, Garib foi à cata de emprego nos mais divesos locais - agência de publicidade, Telecurso 2º Grau, jornais (jornalista formado pela UEL, ele fez alguns trabalhos para ‘‘O Estado de São Paulo’’. Em Londrina, ele trabalhou no SBT, CNT, Rádio Universidade Fm e fez alguns trabalhos para a Folha de Londrina), entre outros. Ah, sim: acabou deixando o currículo na filial da Rede Globo em São Paulo. E deu certo. Hoje, Adriano Garib dá vida ao mineiro Juarez, da novela ‘‘Salsa e Merengue’’.
Ou seja, o ator com consistente formação teatral - iniciada em Bauru (SP) e aprimorada em Londrina nos grupos Delta, Armazém e Theatrotal - hoje é um rosto conhecido nacionalmente. Não tanto já que, como ele mesmo faz questão de frisar, o seu Juarez é um ‘‘personagem periférico’’ que não influi tanto na trama de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa.
Até que foi relativamente fácil ser notado pela Rede Globo. Duro mesmo foi estrear, já que até chegar à badalada ‘‘Salsa e Merengue’’ Garib teve que domar muitos contratempos. Foi assim: o sinal verde para a televisão começou depois de um bem-sucedido teste na Globo paulista em que interpretou um fragmento da peça ‘‘Gota D’Água’’, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Em 12 minutos de teste, ele interpretou o personagem Jazão, sob a direção de Emílio Di Biasi.
A boa repercussão rendeu um convite para fazer um dos episódios de ‘‘Você Decide’’que seria gravado em São Paulo. Só que na última hora, a emissora resolveu fazer tudo no Rio de Janeiro. Em seguida, o diretor Dênis Carvalho o chamou ao Rio para disputar, junto com Ricardo Macchi, o papel do cigano Igor na novela ‘‘Explode Coração’’. Não era ainda desta vez. ‘‘Apesar de pouca experiência como ator, o Macchi tinha um tipo físico mais adequado para o personagem’’- reconhece Garib.
Nesse meio tempo, Garib foi chamado pelo diretor Ulisses Cruz para fazer o personagem Lizímaco da peça ‘‘Pércicles, Príncipe de Tiro’’, de Shakespeare, em substituição ao ator Maurício Ferrazza. Ficou até o final da temporada. No início de 96, um novo reencontro com Paulo Autran. Desta vez, em ‘‘Rei Lear’’, com direção de Ulisses Cruz.
Eis que, de repente, a Globo o chama novamente. Agora, para fazer Bruno Berdinazzi, na primeira fase de ‘‘O Rei do Gado’’. O papel acabou ficando com Marcelo Antony. Mais tarde, o diretor da novela, Luiz Fernando Carvalho, o chamou para interpretar o cafajeste Ralf. ‘‘Eu recusei porque não podia deixar o pessoal do Rei Lear na mão’’ - lembra Garib.
No meio da temporada carioca de ‘‘Rei Lear’’, Adriano Garib recebeu um telefonema do casting da globo lhe oferecendo um contrato de três anos e meio, com um salário base (não revelado por ele). Assinou e foi disputar, novamente com Marcelo Antony, o papel de Eugênio. Perdeu. ‘‘Eu sabia de antemão que não era para eu fazer porque o personagem exige um porte principesco’’- diz.
Acabou ficando com Juarez. E está satisfeito da vida. Aos 32 anos, ele tem planos de crescer ainda mais dentro da emissora, sem abandonar o teatro, o seu elemento mais natural. A seguir, os principais trechos da entrevista que Adriano Garib concedeu à Folha2.
Você é um ator de teatro que está fazendo novela na Rede Globo. A mudança foi grande para você?
Garib - Demais. A minha educação sempre foi teatral; nunca tive uma educação para vídeo ou cinema como muitos atores têm. O fato de eu ter trabalhado em teatro em Bauru e em Londrina, principalmente em Londrina, é que me possibilitou isso. Meu currículo tem uma participação num curta metragem da Berenice, mas isso não foi o suficiente para que eu entendesse direito o que vem a ser esse veículo. Claro, cinema é bem diferente de televisão mas digamos que há uma similaridade.
Eu pergunto isso porque normalmente quem é de teatro tem um certo receio de televisão, e no entanto quem é de televisão não tem receio de fazer teatro. Pelo jeito você não tem preconceito contra as novelas, não é mesmo?
Garib - De forma nenhuma. Eu acho que o ator hoje, se for um ator consciencioso, vai entender que televisão é um mercado, mais do que tudo. Televisão não é simplesmente... Claro, que a televisão projeta seu trabalho e que a partir de um determinado momento ela é importante para sua carreira... Mas a televisão é um mercado. Pô, bicho, nós vivemos num país de terceiro mundo, um país miserável e se a gente realmente quer manter a custa de muito suor, muita bravura e muito heroísmo o nosso ofício, a gente tem que ter em vista tudo o que o mercado oferece.
Você fala com essa segurança porque veio do teatro e tem uma base sólida. Na sua opinião, haveria uma dificuldade maior se você tivesse começado diretamente na televisão?
Garib - De forma nenhuma. Eu falo com essa segurança porque eu acho que o ator... Inclusive, você tem que partir do seguinte pressuposto: é possível fazer boas coisas na televisão. Tanto é que a gente vê grandes atuações na televisão. Agora, é evidente que para se chegar lá tem um caminho; e para se chegar ao fundo do copo você tem que entrar pela superfície. Eu confesso a você que apesar de ter uma experiência que possa ser considerada sólida no teatro - afinal eu ralei muito e consegui conquistar um certo nível técnico e artístico - eu tive muita dificuldade quando coloquei minha cara num set de televisão.
Que tipo de dificuldade?
De equalização, de tamanho das coisas. No teatro você precisa evidemente de um certo expressionismo, de tintas um pouco mais fortes na medida que você está num palco e as pessoas na platéia. Em compensação, no teatro a sua personalidade cênica é muito mais verdadeira porque ela está inteira e presente.(...) É preciso entender que o tamanho das coisas na televisão é muito menor. É muito mais delicada a equalização porque se você tem um tom de voz um pouco acima do nível, a captação dos microfones é absurdamente delicada que a atuação na televisão pode ficar over.
Você tem tom de voz alto. Além disso, o que você precisou consertar na televisão?
Garib - Não foi preciso nenhum diretor dizer: olha, você não está num palco. Desde que comecei a frequentar esse meio eu percebi que o lance era o pouquinho, o menos. Que um rosto relaxado num vídeo é a coisa mais linda que existe; que um um rosto enrugado no vídeo é a coisa mais grotesca que existe; que uma voz colocada de maneira suave é agradável ao passo que uma voz como essa que estou usando nessa entrevista com você é absurdamente exagerada.(...) A primeira vez que me vi num vídeo eu me achei absurdamente grotesco.
E como você está agora?
Garib - É muito precoce para dizer alguma coisa. O Juarez é um personagem periférico, ele não está na trama, está à margem. Acontece que para o autor de uma novela, aqueles que estão à margem da trama não têm uma continuidade. Um grande barato na televisão é a continuidade. O Juarez não. Acontece alguma coisa relativamente importante para história dele na novela e volta a se retomar esse assunto dez dias depois. Então, essa ausência de continuidade, eu acho, é que faz dele um personagem digamos...não é um personagem que permite ao ator ter grande esforço de atuação.
Posso interpretar isso como uma reivindicação maior de espaço para o Juarez?
Garib -Não, não. Não teria como ter um espaço maior para o Juarez porque a origem dele dentro da novela já pressupõe uma atuação periférica.
Você não tem vontade que o Juarez cresça? De que maneira você gostaria que ele crescesse?
Garib - É óbvio que eu gostaria que ele crescesse sim. Todo ator tem a vontade de mostrar um trabalho mais íntegro, mais presente. Tendo em vista que aconteceu até agora - e temos só mais 65 capítulos pela frente - esse personagem tem poucas possibilidades digamos...Ele pode se manter até o final da novela, mas tem poucas possibilidades de entrar na trama porque a trama central vai continuar sendo conduzida por aqueles 15 ou 20 personagens, um grupo ao qual o Juarez não pertence. Eu não tenho essa pretensão de entrar na trama. A pretensão que tenho nessa novela é de continuar mantendo um bom nível de trabalho. Embora o Juarez não me dê possibilidade de grandes vôos interpretativos...Isso acontece porque a novela tem muitos personagens, muitos ficam desassistidos. É natural. Eu procuro fazer o melhor que eu posso mesmo sabendo que o Juarez é um personagem limitado. Eu procuro fazer o melhor que posso e é isso que está agradando.
Que tipo de personagem você faria legal? Um vilão?
Garib - Eu adoraria fazer um vilão...
É incrível como todos os atores gostam de fazer vilões...
Garib - Eu adoria fazer um vilão, mas eu acho que existem outras possibilidades. Até agora eu já fui chamado para fazer um empresário, um cigano, um fdp, um italiano gente boa... Isso significa que a tendência deles é não me estigmatizar só com um tipo de personagem.
Você é um ator versátil, é isso?
Garib - Pelas indicações que eu tive até agora e pelos convites que pintaram dentro da emissora é o que parece. E eu espero que continue. Por exemplo: fui chamado para fazer um espetáculo no Rio de Janeiro, onde faria um professor universitário. Esse tipo de abrangência que meu trabalho ganha é o que mais me agrada. Ninguém contrata ninguém à toa por três anos. Eles não me contratariam três anos à toa e no meu holorite - agora eu vou esnobar um pouco - está escrito ‘talento estratégico’.
O que você imagina o que seja um talento estratégico?
Garib - Talento estratégico é exatamente isso: talento estratégico. Alguém em quem eles acreditam. É por isso que eu acredito que nos próximos três anos devam pintar papéis com os quais eu possa mostrar ainda mais o meu trabalho.
Vamos falar de vaidade. É bom ser famoso, popular?
Garib - Eu não posso negar minha vaidade. Nenhum ator pode negar a vaidade que tem. A vaidade, como já disse Paulo Autran de maneira muito sábia, é um dos motores do trabalho do ator. Se ele não tiver nenhuma vaidade não tem porque estar no palco.
O primeiro pedido de autógrafo a gente nunca esquece?
Garib - O pessoal, às vezes, pede e eu trato muito bem. Geralmente quem pede autógrafo é porque reconhece seu trabalho.
Você não ficou chocado já que as pessoas que vão ao teatro e não têm o costume de pedir autógrafo. E de repente você está na rua e chega uma tiete...
Garib - É estranho sim. É estranho porque você rala, rala, rala fazendo teatro; muita gente te vê, muita gente sabe que seu trabalho é bom mas só vão pedir autógrafo quando se faz televisão. É uma convenção. Eu acho que para essas pessoas aparecer na televisão ainda é uma magia. E no entanto não é. Aparecer na televisão, eu não vejo nenhum fato extraordinário nisso. Eu ainda não sou muito parado na rua.
Você é um rapaz bonito. Você não tem medo de explorar você como galã?
Garib - Esse tipo de coisa eles sempre vão explorar e sabe o porquê? Por que isso é uma questão mercadológia pra eles - isso vende e eles são indústrias. Eles precisam de caras novas e caras bonitas porque em televisão isso é fundamental... E eles vão sempre explorar isso porque dá audiência e o que eles precisam é de pontos de audiência.
Mas voltando à pergunta..
Eu tô...Se eles acham que minha imagem é uma imagem adequada para vídeo por que não...já que em teatro o material de trabalho é seu corpo e sua cara por que não...Eu, inclusive...Fazer papel de galã, desde que você faça bem o papel é isso que importa. Agora, a tietagem e esses tipos de coisas cada ator administra de uma maneira. Eu espero que se isso vier a acontecer - por enquanto poucas pessoas me reconhecem na rua - eu saiba lidar da melhor maneira possível sem, primeiro lugar, ficar com o saco cheio desse povo. E em segundo lugar sem ficar me ‘achando’. Esse é o grande problema: tem neguinho que fica se ‘achando’ e não é por aí.

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