Ele nasceu num lugar que seu conterrâneo maranhense José Sarney diz ser mais pobre do que as cabras: Lagoa das Onças, município de Pedreiras, onde seu olhar lírico via casais que dançavam pisando em flores. Não foi alfabetizado - os pinguinhos, dizia, atrapalhavam. No entanto, poucos intelectuais interferiram tanto quanto ele no imaginário do Brasil moderno.
João do Vale é o autor do ‘‘Carcarᒒ, em parceria com José Cândido. Aqueles três verbos, sempre, sintomaticamente, no presente do indicativo - ‘‘Pega! Mata! Come!’’ - incendiaram o País, em 1964, em seu inefável poder de síntese. O carcará era o poder, o sistema, o capitalismo: ‘‘É um bicho que avoa que nem avião/ É um pássaro malvado/ Tem o bico volteado/ Que nem gavião.’’
A editora Lumiar acaba de lançar o livro ‘‘Pisa na Fulô Mas não Maltrata o Carcará - Vida e Obra de João do Vale, o Poeta do Povo’’, de Marcio Paschoal. A biografia analítica - que tem prefácio de José Sarney, de onde sai a citação de três parágrafos acima - foi escrita por ele a pedido da família do compositor. O título poderia ser menos trocadilhesco e a estrutura do livro mais bem organizada. É, ainda assim, uma obra de referência importante.
As 295 páginas contém mais de 40 fotos, cópias de contratos de edição e de partituras originais, discografia, musicografia - são mais de 200 títulos - e depoimentos de gente diversa, de Edu Lobo a Zeca Baleiro, de Chico Anysio a Ivan Lins. O autor é economista, letrista de música e tem dois livros publicados - um romance e um trabalho de humor.
Bem, João do Vale já era famoso e ficou mais famoso depois do ‘‘Opinião’’, em que dividia o palco com a cantora Nara Leão e com o compositor Zé Kéti. O texto era de Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, integrantes do núcleo principal do Grupo Opinião. O Grupo foi criado logo depois do golpe militar de 1964. ‘‘A palavra de ordem era resistir’’, escreve Marcio Paschoal.
Oduvaldo Viana Filho foi quem teve a idéia. Um espetáculo musical que juntaria em cena três Brasis: a moça da classe média do Rio de Janeiro, o suburbano carioca, o migrante sobrevivente. Os personagens falavam de si mesmo. O texto inicial de João do Vale era assim: ‘‘Meu nome é João Batista Vale. Pobre, no Maranhão, ou é Batista ou Ribamar. Eu saí Batista. Nasci na cidade de Pedreiras, Rua da Golada, hoje chamada João do Vale. Quer dizer: eu, assim com essa cara, já sou rua. Moro na Fundação da Casa Popular de Deodoro, rua 17, quadra 44, casa 5. Duas horas sem encontrar ladrão, chego lá. Tenho duzentas e trinta músicas gravadas, fora as que vendi. De quinhentos mil-réis pra cima, já vendi muita música’’ - e assim por diante. Uma pequena biografia.
Correu, na época, o que não era verdade, que tanto João do Vale quanto Zé Kéti estavam sendo ‘‘utilizados’’ pelos intelectuais de esquerda para doutrinação política da classe média. Mas a questão era mais complexa. Carlos Lacerda, um político conservador, citado no livro, definiu: ‘‘João do Vale não faz parte dessa tropa ideológica da esquerda festiva. Com a sensibilidade de seus versos, ele fala do que viveu e conheceu na pele grossa de trabalhador braçal.’’
De fato, João do Vale sempre contou sua história. Sua cidade, as ruas de sua cidade, as festas - nos versos de ‘‘Pisa na Fulô’’: ‘‘Um dia desses fui dançar, lá em Pedreiras/na Rua da Golada, e gostei da brincadeira.’’ Foi a rua em que ele nasceu, no dia 11 de outubro de 1933, quinto filho de Cirilo e Leovigilda. Pequenininho, de pernas tortas, vivia dançando e ganhou o apelido de Pé de Xote.
Gostava de música e cantava muito bem - João do Vale era gago e só não gaguejava cantando. Portanto, cantava. Ganhava trocadinhos vendendo fruta, bolinho, pirulito, carregando água, o que desse para fazer. Entrou para a escola e, conta Marcio (João gostava de contar essa história), a coisa mais importante para ele ficou sendo estudar. Mas chegou um coletor novo na cidade, com um filho que precisava da vaga. João foi o escolhido para ceder a vez. ‘‘Na escola tinha uns trezentos alunos, mas escolheram logo eu para dar lugar ao filho do homem’’, disse João num depoimento para a a coleção Nova História da Música Popular Brasileira. ‘‘Resolvi nunca mais estudar’’ - por isso os tais pinguinhos atrapalhavam.
A essa altura, o irmão mais velho, Aurélio, que morava em São Luís, foi promovido a terceiro-sargento. Com salário melhor, chamou a família para a capital. João ia vender frutas na feira da Praia Grande. Escreve Marcio Paschoal: ‘‘Vêm daí suas primeiras melodias e cantorias, inspiradas no passado do trabalho na roça com o pai, ouvindo cantigas africanas, religiosas e de ofício, e que, de acordo com o testemunho de sua irmã Mônica, já antecipavam a vocação musical do irmão.’’
Pois é: João, adolescente, já era compositor. E seu grande sonho era mudar para o Rio de Janeiro. Um dia, fugiu com o circo. Destino inicial: Teresina. Depois, todo o Nordeste e o Norte. João foi só até Teresina. Abandonou a trupe e arranjou emprego como ajudante de caminhão.
A primeira viagem do ajudante foi para Fortaleza. No show ‘‘Opinião’’, ele contava: ‘‘Aí, de Fortaleza, eu escrevi uma carta para meu pai. Perdão, pai, por ter fugido de casa. Não tinha outro jeito, pai. Pedreiras não dá pra gente viver feliz. Não pedi licença porque conheço o senhor: é muito apegado com os filhos, não deixaria eu sair de casa só com 14 anos’’ - o texto junta ficção e realidade. Ele não fugiu de Pedreiras, mas de São Luís, e não sabia escrever. Mas tinha mesmo 14 anos.
Passou quase um ano entre Fortaleza e Teresina. Marcio Paschoal considera que nessa fase formou-se a base da futura poesia de protesto de João do Vale. Cabe lembrar que ‘‘música de protesto’’ era a música de cunho político que se fazia nos anos 60 e 70.
O escritor apóia sua tese em depoimento de João: ‘‘Durante minhas viagens de ajudante de caminhão, eu não tinha mesmo intenção de pesquisar nada; mas vi e guardei um monte de coisas: ajudante de caminhão vai pra tudo que é buraco. O engraçado é que eu não tinha essa pretensão de capturar cosias. Eu via normal... Agora, depois que fui crescendo, fui ficando maduro, é que fui lembrando, sabendo. Quer dizer, era um tipo de pesquisa que eu estava fazendo, involuntário (...)’’
Num momento, em 1947, foi parar em Salvador e resolveu ficar por lá algum tempo. Aprendeu o ofício de pedreiro, pensando em juntar dinheiro para descer até o Rio de Janeiro. João contava - fica valendo a versão - que, um dia, viu a foto de Assis Chateaubriand entregando um colar de águas-marinhas para a rainha da Inglaterra, revoltou-se e compôs ‘‘Sina de Caboclo’’: ‘‘Eu sou um pobre caboclo/ Levo a vida na enxada/ O que eu colho é dividido/ Com quem nunca plantou nada’’ - música de protesto é isso aí.
Não é provável que ‘‘Sina de Caboclo’’ tenha mesmo sido escrita nessa época - parece madura demais, incisiva demais para um adolescente. Em todo caso, o xote só ficou conhecido quando Nara Leão o cantou, no show ‘‘Opinião’’ - e depois o gravou, no disco ‘‘Opinião’’ de Nara, em 1965.
Depois de seis meses em Salvador, João do Vale foi para Teófilo Otoni, em Minas Gerais, tentar a sorte no garimpo. Não deu sorte: ‘‘Cavei, cavei, buraco de três, quatro metros no chão, cristal não achei, pedra preciosa também não; achei foi formigueiro’’, contava. No quinto formigueiro, desistiu. Como ajudante de caminhão chegou, finalmente, ao Rio, em dezembro de 1950. Tinha 17 anos, trabalhava e dormia em obra, em Copacabana, e à noite ia de emissora de rádio em emissora de rádio para mostrar as músicas.
Nesse período, conheceu - o ainda desconhecido - Tom Jobim, que lembra do encontro: ‘‘Naquela época eram porres de cerveja e cachaça. Nós bebíamos muito, sofríamos e sonhávamos com uma vida melhor.’’ Mas João precisava mesmo era de alguém influente que gravasse sua música. Conheceu Luís Vieira, que gostou dele de cara e resolveu ajudá-lo - viriam a ser parceiros. A parceria mais famosa é o xote ‘‘Na Asa do Vento’’, gravada originalmente por Dolores Duran, em 1953: ‘‘Deu meia noite/ A lua faz o claro/ Eu assubo nos aro (sic)/ Vou brincar no vento leste/ Aranha tece puxando o fio da teia/ A ciência da abeia (sic)/ Da aranha e a minha/ Muita gente desconhece/ Muita gente desconhece, olará, viu?/ Muita gente desconhece.’’ Foi com essa música que pode largar a obra e viver de composição.
Outra parceria de João e Luís é uma pequena obra-prima que Maria Bethânia regravou há pouco tempo, o baião ‘‘Estrela Miúda’’: ‘‘Estrela miúda que alumeia o mar/Alumeia a terra e o mar/ Pra meu bem vir me buscar/ Há mais de um mês que ela não/ Que ela não vem me buscar (...)’’
Bethânia, como se sabe, deve muito da carreira a João do Vale - sua estréia profissional foi no show ‘‘Opinião’’, substituindo Nara Leão (que a havia visto cantar, em Salvador e, deixando o espetáculo, indicou-a), e dali saiu seu primeiro grande sucesso, o Carcará.
Com o sucesso de ‘‘Na Asa do Vento’’, João começou a ser conhecido e respeitado. Tornou-se uma estrela - fez pontas em filmes como ‘‘Mãos Sagrentas’’, de Carlos Hugo Christensen ou ‘‘No Mundo da Lua’’, de Roberto Farias. Os sucessos sucederam-se: ‘‘Peba na Pimenta’’ (com José Batista e Adelino Rivera), ‘‘Coroné Antônio Bento’’ (com Luís Vanderlei), ‘‘A Voz do Povo’’ (com Luís Vieira), ‘‘Carcarᒒ (com José Cândido), ‘‘O Canto da Ema’’ (‘‘A ema gemeu/ No tronco do jurema’’, com Ayres Vianna e Alventino Cavalcante), ‘‘Zé da Onça’’ - essa só dele. Não se sabe qual o papel exato dos parceiros. Ele mesmo contava que vendia músicas por quaisquer quinhentos mil réis.
Essa é a história da ascensão. A queda veio no fim dos anos 70, início dos 80. Quando morreu, em dezembro 1996, João do Vale estava havia oito anos paralítico, com dificuldade de falar devido a um derrame, vivendo em dificuldade financeira. Chico Buarque produziu dois discos para ajudá-lo, em 1981 e 1994, com participação de Tom Jobim, Fagner, Nara Leão, Alceu Valença, Gonzaguinha, Edu Lobo, Maria Bethânia - todo o primeiro time. Ele, mesmo, que cantava muito bem, gravou apenas um elepê, em 1965; não contam como disco próprio o registro ao vivo do show ‘‘Opinião’’ e os volumes de coleções sobre música popular.
Mas haveria lugar para João do Vale nos nossos dias?
Essa é a pergunta que a biografia deixa no ar - é irrespondível, como é fácil saber que estes não são tempos para sonhadores.