Assim que desembarcou em Marrocos, Eliane Giardini decidiu fazer uma pequena traquinagem com a equipe da novela. A espirituosa atriz comprou um ''kaftã'' como é conhecida a túnica marroquina e saiu, lépida e fagueira, pelas ruas pedregosas da cidade de Fez. Na hora da gravação, o diretor Jayme Monjardim demorou a reconhecê-la por trás de tantos véus. A brincadeira serviu para Eliane ''incorporar'' a mulher muçulmana. Mas serviu também para ilustrar o jeito irreverente da atriz, que nunca fez uma vilã cômica na tevê. ''Não teria auto-estima para fazer uma vilã de verdade. Não me agrada a idéia de ser xingada na rua ou agredida em supermercado'', brinca a atriz de 48 anos.
O convite para interpretar a implicante Nazira, de ''O Clone'', partiu da própria Glória Perez. A autora foi assistir à peça ''Memória da Água'', de Felipe Hirsch, e se comoveu com a atuação da atriz. Nela, Eliane interpreta a mais velha de três irmãs. Na novela das oito, o papel não é lá muito diferente. Solteirona, Nazira também é a primogênita de uma típica família marroquina, que zela pelo bem-estar dos irmãos com a mesma tenacidade que inferniza a vida das cunhadas. ''Os muçulmanos são muito parecidos com os italianos. Eles gritam por qualquer coisa, falam alto e se estapeiam. A idéia que se tem é que estão sempre brigando'', observa Eliane, que é filha de italiano com brasileira.
Prestes a completar 20 anos de carreira na tevê iniciada em 1982, com a novela ''Ninho da Serpente'', da Band , Eliane Giardini tem uma dívida de gratidão com Glória Perez. Foi ela quem convidou a atriz, uma ilustre desconhecida na época, para trabalhar na Globo em 90, na minissérie ''Desejo''. Quando as duas voltaram a trabalhar juntas em ''Explode Coração'', cinco anos depois, Eliane já era tida como uma atriz de talento. A alcunha de ''mulher de Paulo Betti'' já era coisa do passado, graças à comovente atuação de Eliane como a Dona Patroa, de ''Renascer''. ''Sofri muito até que deixei de ser vítima e encarei a situação de frente. Foi aí que o casamento dançou. Mas separação é uma das muitas reviravoltas que a vida dá'', minimiza.

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Qual foi a primeira impressão que você teve ao desembarcar em Marrocos para gravar a novela ''O Clone''?
A impressão que tive foi que estava em outro planeta. Ou, então, que eu entrei numa máquina do tempo e desembarquei, sei lá, no tempo de Cristo. Às vezes, eu via o Dalton Vigh andando na rua com aquelas roupas e me sentia num filme bíblico. Ele tem um jeitão de Jesus Cristo, não? É tudo muito diferente do que a gente está acostumado a ver. As roupas, os costumes, as medinas. É o avesso do avesso do avesso... Só não estranhei mais porque já sabia o que ia encontrar por lá. Antes de viajar, tive um mês de palestras no Projac. Neste período, conversei com diversos muçulmanos sobre cultura, religião, culinária. Até cozinhar eu aprendi. É tudo muito diferente. Só para dar um exemplo: eles rezam cinco vezes por dia. E, antes de rezar, lavam as mãos, os pés, a cabeça...

Você se considera uma pessoa religiosa?
Sim, extremamente religiosa. Mas, como dizia o Guimarães Rosa, eu bebo de todas as águas. Não tenho uma religião definida. Não sou católica, nem muçulmana. Todas elas falam da mesma coisa. Todas elas falam da necessidade de se entrar em conexão com essa consciência superior que muitos chamam de Deus. E cada um se conecta de uma forma. Algumas pessoas rezam o terço, outras acendem velas, outras ainda inventam rituais. O importante é buscar uma conexão. Já o provedor não interessa tanto.

Viajar para Marrocos ajudou na composição da Nazira?
Ajudou e muito. O mais curioso é que o núcleo marroquino da novela é todo formado por descendentes de italianos: eu, Letícia Sabatella, Antônio Calloni, Dalton Vigh, Giovanna Antonelli, entre outros. A nossa maior preocupação foi não trocar as bolas. Mas é tudo muito parecido. Você vê uma família de árabes conversando e pensa que eles são italianos. Eles são muito dramáticos, espalhafatosos... Esses personagens muito extrovertidos e passionais são riquíssimos. Lembro de umas tias minhas lá de Sorocaba e deixo a memória fluir. Os muçulmanos são assim: gritam por qualquer coisa, falam alto, se estapeiam. A idéia que se tem é que estão sempre brigando. Mas não é nada disso. É apenas o jeitão deles.

Do pouco que viu e estudou, você faria alguma avaliação da mulher muçulmana?
Esse é um assunto muito delicado. A nossa situação é diferente da delas. Não dá para analisar de qualquer jeito. Seria leviano. Tudo lá faz parte de um contexto cultural. Se você analisa qualquer coisa fora do contexto, corre o risco de cometer alguns erros. É a mesma coisa que afirmar que o índio é selvagem, entende? À primeira vista, achei tudo muito absurdo. É claro que existem exageros. Elas sabem e estão lutando contra isso. O número de advogadas no Egito, por exemplo, cresceu muito. As mulheres mais velhas andam cobertas da cabeça aos pés. As mais novas, nem tanto. Mesmo assim, você ouve coisas que faz refletir sobre a real situação da mulher no Ocidente...

Como assim?
Elas dizem, por exemplo, que não temos tanta liberdade assim e que vivemos muito sobrecarregadas. E acho que elas têm razão... Aqui, as mulheres cuidam dos afazeres domésticos, trabalham fora e, quando o marido sai de casa, têm de tomar conta de três, quatro filhos... Nesse sentido, as muçulmanas são mais protegidas do que nós. Economicamente falando. Elas nunca ficam sozinhas. Tem sempre alguém velando por elas. Isso já não acontece por aqui. Nem mesmo quando a gente se casa. A gente nunca sabe o que pode acontecer... Esse pesadelos elas não têm. Mas têm outros. Como nós também temos outros. É tudo muito relativo.

Como você vê a oportunidade de interpretar uma vilã pela primeira vez na carreira?
De fato, nunca interpretei uma vilã antes. E o melhor de tudo é que a Nazira é uma vilã cômica. Os meus últimos trabalhos, aliás, têm enveredado por uma linha mais cômica. Isso é ótimo. Sabe aquela pessoa que quer ser perfeita em tudo? Pois é. A Nazira é assim. Perfeccionista à beça. Só que ela acaba passando dos limites e pegando no pé de quem não faz as coisas do jeito que ela quer. No final das contas, sobra para as pobres das cunhadas. Ela nunca está satisfeita com o que elas fazem.

A cigana Lola, de ''Explode Coração'', também tinha uma forte inclinação cômica...
Tinha. Aliás, aquela novela foi muito divertida de fazer. Me diverti muito com a Lola. Vislumbrei essa possibilidade de novo e, graças a Deus, não estava enganada. Só não sei se teria auto-estima suficiente para fazer uma vilã de verdade. Já imaginou? Não sei se aguentaria ser xingada nas ruas ou agredida no supermercado.

Já aconteceu de você recusar algum convite na tevê por não gostar do perfil do personagem?
Não. Nunca recusei um papel na vida. Isso ainda não aconteceu. Não aconteceu de eu ser chamada para fazer um papel que não gostasse. Ou que não quisesse fazer e ficasse numa ''saia-justa'' por recusar o convite. Isso ainda não aconteceu. Mas já aconteceu de eu ter de optar entre dois trabalhos.

Mas já aconteceu de um determinado papel não ter rendido o esperado?
Ah, já. Na última novela que fiz, isso aconteceu. ''Andando nas Nuvens'' não rendeu o esperado. Para a maioria do elenco, aliás. O Euclydes Marinho ficou centradíssimo na trama principal e não sobrou muita coisa para o restante do elenco. Acontece.

O que você faz para conviver com isso durante oito, nove meses?
Eu nunca aposto todas as minhas fichas num trabalho só. Se apostasse, seria muito frustrante. Estou sempre tocando alguns projetos teatrais. Quando não estou em cartaz, já estou viabilizando meu próximo projeto. Nunca vivo em prol de um trabalho só.

Durante muito tempo, você disse que, se não fizesse sucesso até os 40 anos, tentaria outra atividade. O que pensa disso hoje?
Penso que isso não passava de uma grande mentira. Se eu não tivesse feito sucesso aos 40, eu teria continuado tentando. Viveria adiando esse prazo até me sentir realizada na profissão. Não sei fazer outra coisa na vida. Além disso, sei que sou uma boa atriz. Mas eu me ressentia muito da falta de reconhecimento do público. Afinal, vivo num país onde a tevê é que dá o ''status'' de artista para quem quer que seja.

Como você fazia para lidar com a frustração de não ter o seu trabalho reconhecido na tevê?
Era muito frustrante. Uma atriz que não bota a cara na tevê no Brasil, simplesmente não existe. Ela não é convidada para fazer nada. Quem faz televisão está inserido no mercado. Quem não faz, está fora. Sou uma atriz normal. Não faço nada de excepcional. Se não tivesse alcançado esse reconhecimento da televisão, temo que minha carreira estivesse ameaçada. Não conseguia nem mais sair de casa. Quando saía, as pessoas abordavam apenas o Paulo. Em seguida, me perguntavam: ''E você, o que faz?''. Ficava para morrer e pensava: ''Por que ele deu certo e eu não?''. Graças a Deus, isso tudo já passou.

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