UM SOCO NA PLATÉIA
Primeira peça escrita por Brecht é a atração radical que os atores da EAD trazem a Londrina
Jackeline Seglin

Milton Dória




‘‘Baal’’, escrita por Bertold Brecht (à esquerda), foi montada pelos atores da Escola de Arte Dramática (EAD) da ECA/USP dirigidos por Robeto Lage

Considerada a primeira peça escrita por Bertold Brecht, aos 20 anos de idade, ‘‘Baal’’ é o espetáculo que a Escola de Arte Dramática (EAD) da ECA/USP mostra hoje, em Londrina às 23 horas, no Núcleo I. O grupo promete apresentar um espetáculo violento, que teve como base uma proposta radical. A direção é de Roberto Lage, que também dirigiu ‘‘Jennifer - O Amor é Mais Frio que a Morte’’, com o grupo Proteu, de Londrina.
‘‘A montagem vai mexer com o público. E não há meio termo: a platéia adora ou odeia’’, afirma o ator Augusto Gomes, ao falar da reação das pessoas. Para ele, a intenção do espetáculo é ‘‘dar um soco no estômago’’ de cada um.
Na montagem da EAD, os sentimentos trágicos como violência, ódio e paixão são considerados essenciais. Em sua trajetória para o aniquilamento, o poeta Baal despreza sua própria genialidade e concentra obsessivamente toda sua força vital para celebrar seus instintos mais primitivos. Mergulhar na esfera animal é o único caminho aberto para fugir da organização opressiva do homem civilizado.
O assistente de direção Ruy Cortez diz que ‘‘Baal’’ conta exatamente a história de um ser anti-social, que não se conforma com a organização da sociedade. ‘‘Ele é uma pessoa que ainda não tem proposta de organização político-social, mas sabe que o jeito que a sociedade se organiza é equivocado’’, explica. Por isso, ele destrói tudo o que renega: a sociedade pequeno burguesa, as regras de comportamento, a questão da propriedade e de todos os meios de produção. ‘‘E mesmo celebrando os instintos mais primitivos, Baal não age premeditadamente, apenas reage a tudo que abomina’’, diz.
O espetáculo mostra um processo de destruição da personagem, que caminha para o aniquilamento e a solidão. Augusto Gomes salienta que ‘‘Baal’’ é a busca do prazer através da violência, mesmo que para isso ele tenha que lançar mão de qualquer coisa.
Para o grupo de atores, o fundamental é que o questionamento final fica nas mãos do público. ‘‘O espetáculo dirige a pergunta para a platéia. Nós mostramos a trajetória e cabe às pessoas fazerem sua própria leitura. O grupo não toma partido nem condena a personagem. Isso é uma tarefa para o público’’, joga Cortez.
A trama foi construída a partir de cenas independentes, ligadas apenas para acompanhar a vertigem do anti-herói. ‘‘Não há ligação imediata de entendimento. A cada cena surge um novo universo, um novo clima’’, diz Augusto.
A montagem da EAD tem 1h50 de duração. Em todo este tempo, os 12 atores permanecem no palco sem sair de cena. ‘‘Eles estão disponíveis o tempo todo para contar esta história tão radical’’, adianta Cortez. ‘‘E isso exige concentração total, rigor físico e muita energia.’’
O fato de ‘‘Baal’’ ter sido o primeiro texto de Brecht foi de grande relevância para o trabalho da EAD. ‘‘É um texto mais voltado para o lado poético e isso é o que mais está presente no espetáculo. A necessidade de transpor em cena este Brecht poético foi o que mais influenciou o nosso trabalho’’, finaliza Ruy Cortez. A estréia desta montagem aconteceu em novembro do ano passado, em São Paulo.
‘‘Baal’’, de Bertold Brecht. Hoje, às 23 horas, no Núcleo I (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243). Tradução: Márcio Aurélio e Willi Bolle. Direção: Roberto Lage. Com grupo da Escola de Arte Dramática da ECA/USP. Assist. direção: Paulo Vasconcelos e Ruy Cortez. Iluminação: Fernando Jacon. Figurino: Paola Biganti. Sonoplastia: Aline Meyer. Cenografia: Adriana Yazbek, Maria Alice Gonzales e Roberta Paolini. Preparação corporal e coreografia: Yolanda Amadei. Lutas Cênicas: Marcelo Castro e Paulo Vasconcelos. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, idosos e funcionários da UEL pagam meia).

mockup