"Um só Pecado" reestréia em São Paulo2/Mar, 15:07 Por Luiz Zanin Oricchio São Paulo, 02 (AE) - Há cenas que resumem os grandes filmes. Em "Um só Pecado" (La Peau Douce), que reestréia amanhã (03) em São Paulo, há um punhado delas. Basta uma. O acadêmico Pierre Lachenay (Jean Desailly), especialista em Balzac, está no avião quando entrevê o vulto da aeromoça atrás de uma cortina. De Nicole (Françoise Dorléac) vêem-se as pernas. E que pernas. E também se intui (mais do que se ouve) o roçar de uma meia de seda contra a outra. Era um fetiche de François Truffaut. Um par de pernas, o ruído das meias, a silhueta feminina. Tudo isso compõe o tom desse filme elegante, intimista, sutil. Levemente erótico, embora (ou talvez por isso mesmo) todas as peças do drama sejam jogadas no registro do implícito, com a possível exceção do desenlace. E, no entanto, o enredo é baseado num notório fait divers da época. Um caso policial, um triângulo amoroso no qual o adultério conduz a um desfecho trágico. Lachenay é casado com Franca (Nelly Benedetti) e extravia-se nos braços de Nicole. Franca acaba sabendo de tudo, Nicole deseja apenas uma aventura e não uma relação estável e Lachenay fica a ver navios. Truffaut, como de hábito, procura evitar estereótipos. Por exemplo, seria fácil fazer de Franca uma mulher abominável, o que de certa forma desculparia o adultério. Ou o explicaria, segundo a prática comum do cinema moralista. Não. Franca é uma mulher sedutora, bonita, charmosa, compreensiva. Como se Truffaut quisesse dizer que o desejo não se move apenas por carência ou insuficiência. Há nele um valor positivo, inarredável, sem recurso, como sentia o diretor, esse formidável homme à femmes, mas que não se comportava jamais como um Casanova ou vulgar Dom Juan. Truffaut precisava seduzir, por instinto, por paixão, para reassegurar-se, ou simplesmente porque no fundo era muito agradável se apaixonar por mulheres como Françoise Dorléac, Isabelle Adjani, Catherine Deneuve ou Fanny Ardant. O filme é, portanto, a história de um crime contado pelo ponto de vista de um ser amoroso. Não apenas de um sedutor, mas de um homem compassivo, que procura entender as razões de cada um dos envolvidos: o intelectual pouco seguro de si, que cai de paixão pela moça encantadora; a mulher cujo mundo desaba quando se vê na iminência de ser abandonada pelo marido; a moça que ama e deseja, mas não quer se comprometer. Cada um desses personagens age em função dos outros e é arrastado para um jogo no qual é fácil entrar e díficil sair - ileso, pelo menos. Um grande filme? Talvez. Mas, por paradoxo, François Truffaut conseguia atingir a grandeza na dimensão do pequeno, do íntimo, do individual. Foi um antiépico por definição. Foi assim na saga de Antoine Doinel, sempre interpretado por Jean Pierre Léaud, que ele seguiu por vários títulos, além de do inicial "Os Incompreendidos", como "O Amor aos 20 Anos", "Beijos Proibidos", "Domicílio Conjugal" "O Amor em Fuga". São microestudos sobre a convivência entre os sexos, relação que se parece às vezes ao destino de alguns impérios, com a alternância de épocas de ascensão e decadência. Truffaut era arguto observador dessa situação-limite da espécie, que é o ato de amor. Nunca um ser humano é tão frágil como quando está apaixonado. Mesmo porque é quando se sente infinitamente forte. Por isso não é tão raro que esses imbróglios da vida terminem em sangue. Mas mesmo quando isso acontece, Truffaut mescla truculência com sua proverbial elegância. Era um cavalheiro, mesmo ao fazer um personagem empunhar um fuzil de caça para liquidar um caso mal resolvido.