Sempre associei a resistência a Estelio Feldman. Ao enfrentar durante décadas a doença e os altos e baixos de uma Redação, mantinha a tranquilidade, demonstrando que perder a cabeça muitas vezes significa perder a chance de continuar na briga. Quando os problemas ameaçavam nosso cotidiano, ouvir o Estelio era a saída para compreender melhor os embates da profissão, sempre na tentativa de fazer o melhor mesmo quando as situações nos colocam entre a responsabilidade e o desejo de ''chutar o balde''. Estresse foi palavra riscada do seu dicionário. Superando cirurgias e tratamentos dolorosos, era uma felicidade revê-lo voltando ao jornal ao prazo de dez, quinze dias para ocupar seu lugar na editoria de assuntos internacionais a que chamamos ''Mundo''. E no ''mundo de Estelio'' havia espaço para se vibrar com a notícia. Com satisfação, ele anunciava as pautas do dia chamando nossa atenção para os conflitos raciais e as guerras, os escândalos do jet set e os temas da arte e da cultura. Cinéfilo de carteirinha, conhecia de cor a ''ficha'' de grandes diretores, atores e atrizes, citando sem errar os filmes produzidos ao longo das décadas.
Neste ano, o Estelio não estará aqui para acompanhar a cerimônia de premiação do Oscar. Mas, onde estiver, deverá torcer descaradamente por ''Cidade de Deus''. Ainda posso ouvi-lo dizendo: ''Celinha, mesmo que o Brasil não ganhe, o importante é que estamos na briga''. Da mesma forma, quero dizer que do lado de cá continuamos na luta, verdade que bem mais tristes sem a sua presença de boné e livro na mão circulando entre as nossas mesas. Estelio era leitor voraz e, para mim, um mago da notícia. (Célia Musilli)

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