Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Otávio Paz, em seu livro ‘‘O Castelo da Pureza’’ dedicado a Marcel Duchamp (1887-1968), inicia o texto comparando-o a Picasso. Para ele, enquanto o artista espanhol foi um dos homens que mais produziram em arte, o outro – o enigmático francês que era jogador de xadrez e que deu um xeque-mate na história da arte – conseguiu mostrar sua influência justamente pelo silêncio. Paz coloca que Duchamp sempre jogando com paradoxos e sentidos que se estendiam além da pura percepção visual do objeto, transformou a arte do século XX naquilo que ela é hoje. Sem dúvidas, se formos analisar a influência de Duchamp em outros artistas e movimentos, veremos que toda a arte bebeu direto em sua fonte. E que a história da arte o transformou em um mito.
Saiu da França para morar nos Estados Unidos em 1915, um país então emergente e ansioso por novidades do mundo contemporâneo. Seu quadro cubo-futurista ‘‘Nu descendo a escada’’ o tornou um artista requisitado, mas foi com a intervenção do acaso que aconteceu com o quadro ‘‘A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo’’ ou ‘‘O grande vidro’’, que, ao ser transportado por funcionários do museu se quebrou – o que ele considerou genial – que sua revolução começou a ganhar curso. Já tinha sido Dadaísta – movimento artístico de entre guerra, que pregava o fim da arte – teve passagem pelo surrealismo sem aderir ao movimento, foi amigo do fotógrafo Man Ray, com quem fez vários trabalhos e também do poeta Apollinaire.
Mestre da ironia, sua grande jogada foi ter virado um urinol de banheiro masculino na posição horizontal e nomeá-lo por ‘‘Fonte’’ – assinando R. Mutt (eremita) – para uma exposição surrealista, para a qual tinha sido chamado para ser um dos jurados das obras, mas seus pares não queriam que a obra fosse exposta. Duchamp se retirou do cargo em protesto, mas seu gesto ficou marcado para sempre. Foi ele quem criou a idéia do deslocamento da obra de arte: um objeto banal pode se tornar uma obra de arte dependendo de onde for exposto. E com isso também iria inaugurar o gesto artístico enquanto sentido político, já que colocava em dúvida a aura única e seu valor enquanto peça de arte. Quem diz o que é arte ou não?
Seus trabalhos mais conhecidos são justamente esses de retirar os objetos de seu uso comum e dar-lhe um novo sentido de uso, inventando um novo termo que passaria a ser conhecido como os ‘‘ready-mades’’, algo assim como ‘‘pronto-feito’’. Podia ser uma roda de bicicleta sobre uma cadeira, um suporte de garrafas assinado, ou mesmo o retrato da Mona Lisa com bigodinho, alterando toda a idéia de estética que se tinha até então. Sobre os ready-mades o crítico de arte Giulio Carlo Argan, no livro ‘‘A arte moderna’’, afirmou: ‘‘retirando o objeto de um contexto em que, por todas as coisas serem utilitárias, nada é estético, situa-o numa dimensão na qual, nada sendo utilitário, tudo pode ser estético’’.

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