Um show, dois mitos
UM SHOW, DOIS MITOS
Ângela Maria e Cauby
Peixoto se apresentam hoje
no Cabaré do Festival
Internacional de Londrina
Antônio Mariano Júnior
DivulgaçãoÂngela Maria
e Cauby Peixoto
apresentam-se hoje
em Londrina: eles
formam um dos
casamentos
musicais mais
sólidos da MPBEla há de soltar pelo menos um. Ao menos um. Laririiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! Ele, por sua vez, certamente vai destilar toda sua carga dramática e preencher todo o ambiente com seus vibratos ma-ra-vi-lho-sos! Senhores, reverências. Muitas reverências porque suas majestades estão em solo londrinense numa visita oficial e musical que acontece hoje, às 22 horas, no palco do Cabaré do Festival Internacional de Londrina. Conosco, Ângela Maria e Cauby Peixoto. Ou Cauby Peixoto e Ângela Maria. Tanto faz já que um complementa musicalmente o outro. Trata-se de um dos casamentos mais sólidos da MPB.
Pois muito bem. O show é um dos mais aguardados da programação musical do Filo. Promete. Ângela e Cauby estarão se apresentando com seis músicos e cantarão sucessos e mais sucessos. Ângela, sozinha, vai soltar os trinados em pérolas como Orgulho, Falhaste Coração, Gente Humilde, Vida de Bailarina e, tcham-tcham-tcham-tcham, Babalú com direito ao aiê no final.
Cauby vai soltar o vozeirão em pepitas como Onda Anda Você, Canção do Rouxinol, Bastidores, a mais que linda A Pérola e o Rubi e, tcham-tcham-tcham-tcham, Conceição, com toda a licença do mundo para prolongar o ão o quanto lhe convier. Já os dois vão se unir para cantar preciosidades tais como Matriz ou Filial, A Noiva, Recuerdos de Ypacarai, Ave Maria do Morro e contemporaneidades como Codinome Beija-Flor.
Enfim, o público verá em cena mais que dois grandes artistas, mais que duas majestades, mais que os dois belíssimos exemplares da geração de cantores com quilométrica extensão vocal. O público, na verdade, verá no palco dois mitos. Nós somos os cantores oficiais da MPB- afirma Cauby Peixoto com ampla razão. Formamos uma dupla que dá certo porque a gente combina bem na voz, na emoção, na amizade e no caráter- diz Ângela Maria com toda a autoridade.
Não é de hoje que Ângela e Cauby se apresentam juntos. A coisa toda começou em 55 quando ele mais ela se apresentaram na boate Drink, no Rio de Janeiro. depois disso, foram incontáveis dobradinhas no palco. Essa série de encontros rendeu dois discos, o mais recente de 92. Cantamos músicas que não se cantam mais. Os cantores de hoje não têm extensão vocal e as músicas que cantamos precisam de extensão vocal- atesta Cauby.
O fato é um só e irreversível: Ângela e Cauby são cantores populares. De suas gargantas saíram - e saem - canções dos mais diferentes naipes de compositores - dos mais açucarados aos mais elitizados. E o mais fatal, nessa história toda, é que sobreviveram (ainda bem) a vendavais fonográficos, viram nascer movimentos musicais, conviveram lado a lado, no dial das rádios, com os chamados produtos fugazes e cantores que realmente tinham e ainda têm o que dizer.
As coisas passam, as coisas vêm e vão e, no entanto, Ângela e Cauby permanecem como referências. Ângela será, por exemplo, a eterna sapoti, a última rainha eleita nos então concursos de rádio. Cauby será, para sempre, o professor que ainda pode falar de boca cheia de quantas roupas suas foram só alinhavadas para que as fãs assim pudessem rasgá-lo melhor. Ambos não têm gosto de passado. Sim, porque amor de público é para sempre. Atualiza-se a cada novo encontro com os ídolos. Pela lógica, então ambos ainda têm muito chão pela frente.
Casam-se muito bem musicalmente, é certo. O estilo do repertório é muito semelhante. Ambos não são dados a badalações, vivem praticamente encastelados. Mas há diferenças. Ângela, como toda rainha, no palco, desfila elegância no vestir e no cantar. Prefere não recorrer a maiores performances.
E assim mesmo fez escola. Eu sei que sou referência para muitas cantoras. Posso até citar algumas como a Fafá de Belém, a Gal Costa, Elis Regina, Maria Bethânia. Sou referência assim como Dalva de Oliveira- diz ela. Se é a melhor cantora? Aí, bem... a modéstia entra em cena. Eu acho que estou entre as boas cantoras, não a melhor.
Já Cauby adora gestos fatais, caras e bocas; mostra-se sobretudo teatral. E assim também fez escola. Dizem que sou o Frank Sinatra do Brasil e eu concordo. Mas o que falta mesmo é o Brasil dar importância maior a artistas como eu e a Ângela, de nos colocar mesmo que de vez quando em nossos pedestais- analisa. Uau!!
Cento e tantos discos depois, Ângela e Cauby estão de volta à mídia. A mídia não os esquece embora, muitas vezes, economize linhas para mostrar as novas empreitadas. Ângela, pelo jeito, não tem do que reclamar. Estou sempre bem situada na mídia porque alguns cantores entraram e saíram imediatamente. A mídia sempre quer saber de mim, sempre ganho páginas inteiras, capas- informa.
No final do ano passado deu entrevistas a rodo para divulgar seu 110º disco - Ângela Maria - Pela Saudade que me Invade, em que gravou 15 sucessos de seu ídolo maior, Dalva de Oliveira. Cauby também não tem - muito - do que reclamar mas não deixa de relembrar tempos de outrora. O que você está fazendo agora (referindo-se à entrevista) era muito normal. Antigamente tínhamos mais fama, éramos mais ídolos que os ídolos de hoje. E nós precisamos de ídolos sempre- analisa.
Em fase de divulgação de seu novo disco, lançado há coisa de um mês, em que canta, entre outras coisas, sucessos de Dolores Duran, Emilinha Borba e Nando Cordel, Cauby admite: já gravou músicas que não lhe falavam diretamente. Um exemplo é Nono Mandamento, de 58. Vendeu mais que Conceição mas eu não gosto dela. Canto em show porque fez sucesso, mas não gosto- diz ele.
Mas, resumindo, tanto Angela como Cauby ainda ocupam um bom espaço no sagrado coração do público. É pra ele, o público, que eles se vestem, se esticam, se produzem, se retocam, se entregam, cantam. Não se fazem de rogados porque gostam de aplausos. E, em contrapartida, despejam glamour.
Sim, há quem questione o estilo dos dois. Há quem torça o nariz para esses dois ícones da MPB. Em compensação há muitos sempre dispostos a voltar para casa com as mãos flamejando de tanto aplaudi-los. E são para esses que Ângela e Cauby se desfazem em canções. Majestades, clap, clap, clap, clap, clap, clap, clap, clap...
Show com Ângela Maria e Cauby Peixoto. Hoje, às 22 horas, no Cabaré do Filo (Avenida Celso Garcia Cid, 1.419). Ingressoa R$ 10,00 (estudantes, idosos e funcionários da Universidade Estadual de Londrina pagam meia).
Leia mais sobre o Filo na página 3.





