Nelson Sato
De Londrina
Um detetive fracassado, uma trupe de artistas decadentes de circo e um sujeito obcecado por um trauma de infância protagonizam a nova narrativa de Lourenço Mutarelli. O Dobro de Cinco, lançado pela editora e livraria Devir, é seu sexto álbum de quadrinhos.
Traz mais uma graphic novel povoada de personagens bizarros tropeçando em situações imprevisíveis. Desta vez, Mutarelli conta a saga de um investigador contratado para descobrir o paradeiro de um mágico de circo sem saber que está entrando numa roubada. Aqui, o que parecia um trabalho trivial transforma-se num pesadelo de traições, patologias e perseguição de mafiosos.
O autor é um dos nomes mais respeitáveis da HQ nacional. Para usar um clichê, talvez em nenhum outro artista de sua geração caiba o rótulo de ‘‘maldito’’ – não só pelo lugar que ocupa no mercado dos quadrinhos, como também pela temática e a galeria de tipos exploradas em suas tramas. Mutarelli provoca mal-estar e incômodo nos leitores.
Seus traços expressivos costumam acentuar as mazelas físicas dos personagens, estes invariavelmente perdedores. Como em seus títulos anteriores, ele apresenta mais um sujeito mutilado: um domador de leões sem um braço, e repleto de seringas com tranquilizantes enfiadas no corpo. Mutarelli também vasculha os abismos psicológicos de suas criaturas, o que ele anuncia através de um dos diálogos iniciais da revista.
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– Você deve ter virado detetive por gostar de se meter na vida alheia.
– Sou detetive porque não admito a mentira!
– E o quê o sr. sabe sobre a verdade?
– Eu sei que a verdade é aquilo que cada um de nós esconde.
Uma página aterradora mostra uma mulher sentada no piso da cozinha com as duas mãos ensanguentadas esfregando um fiapo de bucha numa colher. Seu marido (que ela trai com um técnico de aparelhos de TV) volta de uma viagem e se assusta com o que vê. A mulher diz que está limpando ‘‘uma sujeira, uma coisa nojenta’’ grudada na colher. Na verdade, não há nada ali a não ser seu próprio rosto refletido na concha.
Mutarelli começou a escrever e desenhar histórias em quadrinhos no começo da década de 80. Os primeiros trabalhos saíram em fanzines, seguidos de outros publicados em revistas como a saudosa Animal. Transubstanciação, sua primeira graphic novel, foi lançada em 1991 obtendo a vendagem impressionante de 13 mil exemplares. Foi premiada como a melhor HQ na Bienal Internacional de Quadrinhos e na mesma categoria no Prêmio HQ Mix.
Depois publicou Os Desgraçados e Eu Te Amo Lucimar, que encalharam nas bancas, embora tenham faturado de novo o HQ Mix. Em 97, voltou à ativa com A Confluência da Forquilha, também contemplado com o HQ Mix. No ano passado, por fim, reuniu boa parte de sua produção na coletânea Sequelas repetindo a consagração na noite de entrega dos troféus do Prêmio HQ Mix. O Dobro de Cinco deve seguir o mesmo caminho.

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