São precisos muitos estalos de dedos para tentar, através de onomatopéia, sonorizar a quantidade de anos que a história entre os dois começou a se desenhar. Cronologicamente, são quatro décadas de entendimento musical mútuo. Ou seja, quase o tempo que a Bossa Nova ganhou o mundo. Ele é um dos mais importantes compositores do movimento musical mais revolucionário do Brasil. Ela, seguidora ferrenha da Bossa Nova. Juntos, Roberto Menescal e Wanda Sá juntam voz e violão hoje, em Londrina, num show promovido pela Teixeira & Holzmann Empreendimentos Imobiliários, dentro do projeto ''Royal Golf in Concert''. O espetáculo ''40 Anos de Bossa'' acontece às 20h30, no Londrina Country Club, e é aberto apenas a convidados especiais.
O show, na verdade, é mais um encontro dos amigos de longa data. Sim, porque Menescal e Wanda já perderam as contas de quantas vezes subiram juntos em palcos do Brasil e do exterior. Tamanha cumplicidade faz com que o repertório a ser apresentado em Londrina seja definido momentos antes de os dois pegarem os respectivos violões e começarem a disparar harmonias para o público. Algumas canções são inevitáveis ''O Barquinho'', ''Telefone'' (ambas de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), ''Chega de Saudade'' (Tom Jobim - Vinicius de Moraes), ''Tem Dó'' (Baden Powell-Vinicius de Moraes). Só uma pequena amostra do cardápio musical da noite que promete ser regada a muito suingue.
No espetáculo, Menescal e Wanda Sá devem apresentar uma ou outra canção do próximo disco que começam a gravar no final do mês, com previsão de lançamento no início do ano que vem. O nome do CD não poderia ser mais apropriado em se tratando dos dois: ''Somos Apenas Bons Amigos'', cuja faixa-título foi composta por Menescal e Abel Silva. O título do álbum, como conta Roberto Menescal, é uma tirada bem-humorada pois muitas vezes, em turnês ou apresentações no Brasil e no exterior, na hora de dar entrada nos hotéis, foram confundidos como casal.
Para recontar en passant a história entre os dois artistas é preciso voltar no tempo. No início dos anos 60, a adolescente Wanda Sá procurou Roberto Menescal para ter aulas de violão. Anos depois, mais precisamente em 64, o então professor já consagrado como compositor produziu o primeiro disco da aluna, ''Vagamente'' relançado no final do ano passado. ''Ele era meu professor e também meu ídolo'', recorda Wanda Sá. ''Menescal é a pessoa mais importante na minha vida profissional. Foi ele quem acreditou em mim'', complementa.
Por sua vez, Menescal guarda recordações bem-humoradas de como conheceu a sua futura aluna de violão. ''Imagina aquele avião, loirinha e queimadinha do Arpoador me pedindo autógrafo...'', recorda-se entre boas gargalhadas. ''A Wanda chegou naquela fase de transição entre as cantoras de grandes vozes e das cantoras com voz macia, de mormaço. Ela pertence a uma geração de cantoras corajosas, junto com Joyce e Nara Leão, que pegou o violão na base do 'diz que fui por aí''', analisa.
Menescal tem toda a propriedade para elogiar a amiga não só pelos atributos artísticos. Se Nara Leão, a quem também deu aulas de violão, foi a grande musa da Bossa Nova, Wanda Sá foi a musa inspiradora da segunda geração do movimento composta, entre outros, nomes, por Marcos Valle, Francis Hime e Edu Lobo (aliás, ex-marido da cantora). ''Eu gosto do título, mas a verdade é que havia poucas cantoras de Bossa Nova. Naquele tempo prevalecia o universo masculino'', diz Wanda.
Já Menescal tem sua teoria para tal título: é que quando Wanda Sá surgiu como cantora, Nara Leão já estava ''subindo o morro'' para cantar Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, Cartola. E Wanda, bela e talentosa, acabou sendo eleita a sucessora de Nara Leão no quesito ''inspiração''. Acontece que no auge de uma carreira promissora, Wanda deixou a música para ser mãe. ''Tive filhos seguidos e preferi ficar lambendo as crias. Em momento nenhum me arrependi disso'', avisa.
A retomada aconteceu quase 30 anos depois. No recomeço, quem estava ao seu lado? Ora, Menescal. Com quem fez e continua fazendo apresentações aqui, ali, acolá e foram ganhando e/ou ampliando público, principalmente fora do Brasil. Prova de que a música brasileira de qualidade, em outras palavras a Bossa Nova, mantém o prestígio intacto. ''O Brasil acontece lá fora'' diz Menescal categoricamente. ''Nosso público mudou bastante. Hoje há muitos jovens interessados em nosso trabalho'', atesta Wanda que retornou aos discos em 95 com o belo ''Brasileiras'', em parceria com Célia Vaz. ''Voltei porque percebi que ainda poderia ocupar o espaço que havia deixado'', afirma.
Roberto Menescal prosseguiu em frente, sempre lembrado até hoje como um dos compositores mais produtivos da MPB. Só com Ronaldo Bôscoli, seu principal parceiro, compôs cerca de 300 músicas. A primeira canção que inaugurou a parceria foi ''Jura de Pombos'', classificada de ''muito ruim'' pelo próprio autor tanto que caiu no esquecimento, se é que um dia chegou a deixar saudades. No total, ele contabiliza quase 500 músicas compostas com diversos compositores uma das mais memoráveis é ''Bye Bye Brasil'', com Chico Buarque.
Além de músico e arranjador, Menescal também produziu discos e mais discos de outros artistas. Não à toa, tem a fama de ser um grande padrinho de intérpretes femininas da nova geração, entre outras, as mais notáveis são Leila Pinheiro e Márcia Salomon. ''Primeiro eu gosto de mulher'', diz bem-humorado. ''E depois porque no Brasil há poucos cantores; há compositores que cantam suas canções. O poder das mulheres é fenomenal'', analisa.
Tanto é que, como informa, a média dos cinco CDs que recebe semanalmente , a maioria é de intérpretes femininas. A mais nova aposta dele é Cris Delanno. Wanda Sá que o diga se o toque de Menescal é ou não de Midas.
Serviço:
''40 Anos de Bossa'', show com Roberto Menescal e Wanda Sá. Hoje, às 20h30, no Londrina Country Club (Fernando de Noronha, 977) , dentro do projeto ''Royal Golf in Concert''. Promoção Teixeira & Holzmann. O espetáculo é apenas para convidados especiais.

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