Um Shakespeare ligeiro
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Prossegue com altos e baixos a presente temporada - mais uma - de adaptações de obras de William Shakespeare para o cinema. Há quem afirme e sustente que, apesar do talento (raro) e transpiração (muita) postos na tela, a essência dramatúrgica do bardo continua infilmável, salvo aquelas honorabilíssimas exceções. Seria compreensível fazer coro com os descontentes, mas o rigor deve ceder diante do inestimável serviço de vulgarização shakespeareana prestado pelo cinema.
Sonho de uma Noite de Verão (em exibição em Londrina) é uma das peças mais leves do criador de Hamlet. Não tão espirituosa ou engenhosa como A Megera Domada ou Muito Barulho por Nada, mas ainda assim com encantos suficientes para justificar uma genialidade não somente a serviço da estrutura do drama. Infelizmente esta adaptação escrita e dirigida por Michael Hoffman apenas se contenta em seguir os tramites, digamos, burocráticos da história, sem trazer um olhar novo, limitando-se a ilustrar contemplativamente a ciranda campestre de flertes e namoricos em ritmo de vaudeville feérico. Há uma espécie de permissividade kitsch que preside a tudo, uma atitude naif que não se sabe se é ou não voluntária. Para animar o espetáculo, sobrevive o texto original nos diálogos recitados por uma constelação de estrelas lideradas por uma incandescente, fulgurante Michelle Pfeiffer, seguida pelo brilho menor de Sophie Marceau - a nova Bond girl - e Calista Flockhart. Entre os faunos, Rupert Everett e Stanley Tucci animam a floresta.





