Um senhor ator
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de dezembro de 1996
André Bernardo<br> TV Press 
Poucos são os atores que conseguem assumir com veracidade os personagens que interpretam. Isso sem recorrer a recursos de maquiagem ou elementos acessórios. Aos 64 anos de idade, Stênio Garcia é um deles. Tanto que o próprio Stênio e o Zé do Araguaia, o fiel escudeiro de Bruno Mezenga em O Rei do Gado, parecem se confundir numa mesma pessoa. O Zé é um personagem muito bonito que representa, ao mesmo tempo, a poesia e a integridade daquela região, define.
Por conta de sua atuação em O Rei do Gado, Stênio foi obrigado a recusar dois convites para atuar no cinema: um de Sérgio Rezende, para trabalhar na superprodução Guerra de Canudos, o outro de João Batista de Andrade, para protagonizar O Cego que Gritava Luz. Por uma ironia do destino, o ator escolhido para substituir Stênio, Tonico Pereira, acabou levando para casa o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília. O personagem era realmente fantástico!, recorda.
No entanto, Stênio Garcia comemora 40 anos de carreira artística sem queixas a fazer. Pelo contrário. Nem mesmo as críticas que enfatizam o seu constante mal-aproveitamento em papéis secundários e de pouca repercussão enfraquecem o seu permanente aprimoramento profissional. Não sou homem de recusar desafios. Aceito esses papéis com a condição de conquistá-los para o grande público, ressalta.
Dono de uma vasta galeria de personagens, Stênio Garcia não consegue esconder um sorriso de satisfação quando o assunto é o seriado Carga Pesada, exibido pela Globo em 1979. O ator reconhece que o pacato Bino, além de selar o início de uma longa amizade com o ator Antônio Fagundes, ainda adquiriu uma importância social muito grande ao tornar conhecida e respeitada uma profissão que era praticamente desconhecida do grande público: a de caminhoneiro. O personagem adquiriu tanta credibilidade que, ainda hoje, sou convidado para fazer comerciais para produtos de caminhão, recorda o ator.
Você não se incomoda de interpretar, mais uma vez, o fiel escudeiro do Fagundes?
Stenio Garcia - De maneira nenhuma. Eu e o Fagundes nos tornamos grandes amigos. Trabalhamos juntos em Corpo a Corpo, Dono do Mundo e, recentemente, na versão de Ulisses Cruz da peça Macbeth, em 1993. Toda vez que viajo para São Paulo, eu e o Fagundes saímos juntos para jantar e discutir novos projetos. Estamos pensando, inclusive, em montar O Homem de La Mancha, onde o Fagundes seria o Dom Quixote e eu, o Sancho Pança.
De 95 para cá, você fez Tropicaliente, Explode Coração e, agora, O Rei do Gado. Essa sucessão de novelas não prejudica a composição dos personagens?
Stenio Garcia - Se o ator tiver os seus métodos de caracterização muito bem desenvolvidos, não prejudica. Costumo dizer que todo ator dispõe de três fontes de expressão: o corpo, a voz e a emoção. Com esses meios bem estruturados, você adquire maior facilidade na hora de construir seus personagens. Por exemplo, acabei de interpretar um cigano em Explode Coração e, no momento, estou estudando para o teatro o Beethoven, uma figura bastante distinta do Zé do Araguaia. Procuro desafiar minhas limitações através das constantes caracterizações. Como interpretar, ao mesmo tempo, um músico erudito e um laçador de bois? Eis o grande desafio do ator.
Mas, de uma maneira geral, a sua imagem está associada a personagens de pouca repercussão. Isso não o aborrece?
Stenio Garcia - Geralmente tenho a oportunidade de interpretar protagonistas em minisséries, como o Padre Cícero ou o Aleijadinho, por exemplo. Quanto às novelas, posso assegurar que não desgosto de meus personagens. O que acontece, em alguns casos, é que a novela passa e o personagem não consegue marcar o público. Agora mesmo, em Explode Coração, acho que todos nós - eu, o Ivan de Albuquerque e até o Paulo José - subsistimos dentro de uma narrativa que não tinha um conteúdo mais forte. No entanto, na maioria das vezes, procuro aceitar o meu personagem e até me esforço em conquistá-lo para o grande público.
Apesar disso, você ainda gosta de atuar em novelas?
Stenio Garcia - Gosto. Afinal, é uma obra aberta onde as coisas estão sempre sujeitas a mudanças. Agora mesmo, não estranharia, por exemplo, se o Zé do Araguaia fosse apontado como o provável assassino do Ralf. Se bem que ele não saiu do Araguaia durante aqueles dias. Porém, numa novela, tudo é possível. Mas, aí, eu teria que mudar todo o caráter do personagem para adaptá-lo ao perfil de um assassino.
No caso específico deste laçador de bois, o Zé do Araguaia, o que ele tem em comum com você?
Stenio Garcia - Nasci na cidade capixaba de Mimoso do Sul e, desde criança, sempre fui muito ligado às coisas do campo. Nesse aspecto, sou muito parecido com o Zé do Araguaia que considero um típico representante daquela região. O Zé é um personagem muito bonito. Íntegro e poético como o Araguaia.
Você não teme o risco de ficar estigmatizado como o ator que interpreta sempre personagens rurais?
Stenio Garcia - Pelo contrário. Interpretar um homem do campo é sempre motivo de orgulho porque, afinal de contas, essa foi uma opção minha. E por um motivo bastante simples. Um ator com feições tipicamente brasileiras não encontrava mercado de trabalho porque, até pouco tempo, o que predominava era um padrão de beleza europeu. Por isso, tive que impor um estilo genuinamente brasileiro de caracterização para conquistar melhores condições de trabalho.
O público tem se queixado que O Rei do Gado atravessa uma fase de estagnação, com muita cantoria e pouco enredo. Como você avalia isso?
Stenio Garcia - Pessoalmente, gosto muito da novela. O Benedito é um dos maiores conhecedores da dramaturgia brasileira e, se ele optou por retratar o cantador sertanejo, é porque sabe o que está fazendo. O Benedito não é bobo de deixar passar em branco essa possibilidade de mercado que é a música rural. Não me parece que o público em geral se aborreça com um maior aproveitamento desse tipo de música dentro do contexto da novela. O diretor Luiz Fernando de Carvalho entende do assunto e sabe dosar muito bem. As cantorias, quase sempre, estão muito bem inseridas no contexto da narrativa.
O atraso na entrega dos capítulos, em decorrência do estresse do autor, não atrapalha o elenco na hora das gravações?
Stenio Garcia - Às vezes acontece de a gente receber, durante a semana, um capítulo por dia. Para nós, não é uma tarefa fácil, mas estamos preparados para isso. Sou capaz de estudar dez cenas em menos de uma hora. O Fagundes, por exemplo, é capaz de ler o roteiro uma ou duas vezes e já decora o texto inteiro. Hoje à noite, posso chegar em casa e receber a notícia de que, amanhã cedo, tenho que gravar dez ou 12 cenas no Projac. Mas esse é o sacrifício que nos cabe. A audiência da novela demonstra que o esforço de toda a equipe tem sido muito bem recompensado. É claro que alguns atores, com menos experiência, encontram maiores dificuldades. Aí, a gente tem que fazer uma forcinha para eles acompanharem o ritmo das gravações.
É o caso, por exemplo, do menino Pedro Gabriel, o Favinho? Como ele tem se saído nas gravações?
Stenio Garcia - O Pedro nunca teve contato com a televisão. Eu e a Bete Mendes fomos encarregados pelo Luiz Fernando de fazer todo um trabalho de desinibição nele. Nos primeiros dias, o Pedro não hesitava em apelar para o choro sempre que encontrava alguma dificuldade para decorar a fala ou fazer uma cena. Aos poucos, conseguimos despertar nele a necessidade de manter uma maior concentração durante as gravações.
Pode-se dizer, então, que foi mais fácil contracenar com ele do que com o Ricardo Macchi, o cigano Igor de Explode Coração?
Stenio Garcia - Foi diferente. Sempre que trabalho com atores mais jovens procuro transmitir o pouco que sei para eles. O Ricardo Macchi não foi mais ou menos interessado do que ninguém. Ele encontrou dificuldades porque pegou um papel que tinha uma responsabilidade muito grande dentro da história. No entanto, acho que ele aprendeu muita coisa e, a qualquer momento, pode deslanchar.


