Um século poético
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de fevereiro de 2002
Nelson Sato Reportagem Local 
A poesia brasileira nunca foi tão festejada. Na esteira das comemorações da virada de milênio, impôs-se frente aos demais gêneros literários alcançando invejável posição nas retrospectivas panorâmicas de época. Depois da publicação das antologias Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (Objetiva) e Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século (Geração Editorial), chega às livrarias a obra 100 Anos de Poesia Uma Panorama da Poesia Brasileira no Século XX.
O projeto, embalado em dois volumes de 240 páginas cada, foi organizado pelos poetas cariocas Claufe Rodrigues e Alexandra Maia. De caráter enciclopédico, diferencia-se dos dois volumes citados por não se restringir a apresentar uma coletânea de versos abrangendo também perfis dos autores, ensaios críticos, bibliografias e informações curiosas sobre os eleitos. O lançamento é da O Verso Edições, com patrocínio da BR Distribuidora, atráves da Lei Rouanet.
São contemplados 102 poetas, escolhidos a partir de uma lista prévia elaborada por um grupo de 20 personalidades do meio literário nacional que incluiu escritores, críticos e professores. Os dois volumes são fartamente ilustrados com fotos e fac-símiles de manuscrito e capas de primeiras edições. Suas próprias capas reproduzem a capa de Paulicea Desvairada, livro de estréia de Mário de Andrade.
Toda escolha é subjetiva, mas, na medida do possível, buscamos refletir as diversas tendências, estilos e caminhos da poesia brasileira, sem sectarismos ou preferências pessoais escrevem os organizadores no texto de apresentação. Dos 500 autores indicados pelo conselho, os 102 mais votados entraram na obra. Claufe e Alexandra lembram que o trabalho de pesquisa revelou grandes poetas esquecidos no passado, e outros, igualmente excepcionais, vivendo fora do eixo Rio-SP.
No primeiro volume aparecem os grandes mestres, os nomes mais expressivos da primeira metade do século. Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes são alguns dos notáveis elencados ao lado de outros menos famosos como Francisca Júlia (única mulher a se destacar no parnasianismo), Raul de Leoni (poeta morto precocemente aos 31 anos, em 1926) e Francisco Carvalho (cearense ganhador do prêmio de poesia na Bienal Nestlé, em 1982, com o livro Quadrante Solar).
O segundo volume, por sua vez, traduz segundo Claufe e Alexandra a democratização absoluta da poesia, um processo que começou no Modernismo, arrefeceu com a Geração de 45 e a Poesia Concreta, mas voltou com força a partir dos anos 70, coincidindo com a disseminação da cultura pop e o fim das vanguardas. Aqui, a tônica seria a simultaneidade de proposições estéticas e a difusão da poesia fora dos meios convencionais.
A diversidade do período abarca nomes como Haroldo e Augusto de Campos, Paulo Leminski, Ferreira Gullar, Roberto Piva, Manoel de Barros, Hilda Hilst, Torquato Neto, Arnaldo Antunes, Waly Salomão e Ana Cristina César. Propício a controvérsias, este bloco de selecionados também inclui autores praticamente desconhecidos como José Chagas (paraibano radicado desde criança no Maranhão e elogiado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade e pelo crítico Wilson Martins), César Leal (cearense que foi o primeiro poeta em língua portuguesa a gravar seus textos para a Biblioteca de Poesia da Universidade de Harvard), H. Dobal (piauiense com 13 livros publicados e tradutor de Pound, Eliot e Cummings) e Astrid Cabral (amazonense casada com o poeta Afonso Félix de Sousa, também incluído na obra).
Ainda na obra, 15 experts escrevem sobre os grandes momentos e movimentos da poesia brasileira no século passado. Os ensaios, que representam as mais díspares correntes estéticas contemporâneas, abordam temas como A Poesia Simbolista no Brasil (Alexei Bueno), O Movimento Modernista (por Ruy Espinheira Filho), Revistas Literárias (Maria Lucia de Barros Camargo), Outras Vanguardas (Iumma Maria Simon) e A Poesia Marginal (Heloísa Buarque de Hollanda).
No final do primeiro livro, há uma lista com todos os poetas excluídos da obra, mas que constavam da relação de indicados. Provavelmente, algumas dessas ausências serão questionadas por um crítico ou outro, caso de Armando Freitas Filho, Décio Pignatari ou Carlito Azevedo. No texto de apresentação, os organizadores tentam apaziguar futuras críticas. Amigos ficarão chateados; poetas vão se sentir injustiçados; acordaremos de vez em quando aos sobressaltos, na dúvida se demos a devida importância a este ou aquele autor. Paciência: no futuro, outras obras virão reparar eventuais injustiças anotam.
Claufe Rodrigues e Alexandra Maia integram o grupo de recitais poéticos Ver o Verso, do qual fazem parte ainda Pedro Bial e Mano Melo. Há dois anos, editaram uma coletânea do grupo. Claufe tem ainda 8 livros publicados entre eles Roman-se e Borboletas Não Dão Lucro. Alexandra é autora de Coração na Boca.
Com a nova empreitada, a dupla lança mais luzes sobre o verso verde-amarelo complementando os recortes históricos-estéticos documentados nas antologias Os 100 Melhores Poetas Brasileiros do Século e Os 100 Melhores Poemas Brasileiros do Século. Agora só falta os leitores cumprirem a sua parte.
Serviço:
100 Anos de Poesia Um Panorama da Poesia Brasileira no Século XX. 2 volumes. Preço: R$ 65,00. Editora: O Verso Edições. Tele/fax: (21) 3474-1124 ou 2266-7468. E-mail: [email protected].


