A frase que o próprio Paulo Gracindo elegeu como epitáfio traduz bem sua longa carreira de 65 anos dedicados ao teatro, ao rádio e à televisão: ''Vivi no palco e representei na vida''. Falecido em 4 de setembro de 1995, o ator recebe agora uma série de homenagens em decorrência do centenário de seu nascimento, comemorado no último dia 16. Como o lançamento de um selo pelos Correios, de um livro organizado pelo especialista em teledramaturgia Mauro Alencar e pelo próprio filho de Paulo, Gracindo Jr., e também o lançamento do DVD ''Paulo Gracindo - O Bem Amado'' em DVD, distribuído pela Biscoito Fino. ''Meu pai é um representante do ator brasileiro. Criou dignidade em nossa profissão que praticamente não existia'', valoriza Gracindo, sempre à frente das homenagens ao pai.
Em época de tanta nostalgia na tevê - incluindo a reprise de ''Vamp'', um dos últimos trabalhos de Paulo Gracindo, em 1991, onde interpretou o bandido Arlindo Cachorrão -, é quase impossível desconhecer um dos principais trabalhos do ator. ''O Bem Amado'', em 1973, foi não só a primeira novela em cores do Brasil, mas também a consagração de Paulo Gracindo na televisão. Tanto que seu Odorico Paraguaçu - famoso por muitos bordões, entre eles, a expressão ''botar de lado os entretanto e partir logo para os finalmente'' - ganhou seriado na Globo durante cinco anos, totalizando 220 episódios em cinco temporadas. E, recentemente, ''O Bem Amado'' ganhou versão cinematográfica que foi transformada em série de tevê, com Marco Nanini no papel do prefeito corrupto de Sucupira. ''A década de 1970 foi o grande período dele. Além de ''O Bem Amado'', ele fez também ''O Casarão'' e ''Bandeira 2'', quando viveu o bicheiro Tucão'', lembra Gracindo Jr. Também nessa época, Paulo Gracindo comandou o game ''8 ou 800'', contando com a ajuda de Sílvia Bandeira como sua assistente de palco.
E foi justamente o contraventor da história de Dias Gomes que fez com que o estudioso Mauro Alencar, que hoje é responsável pela adaptação do documentário ''Paulo Gracindo - O Bem Amado'' em livro, se encantasse pelo ator. ''Aos oito anos, vim ao Rio e pedi para me levarem ao bairro de Ramos para tentar conhecer o Tucão'', recorda. Gracindo Jr. já planeja uma nova homenagem ao pai, depois que conseguir lançar o livro: montar o espetáculo ''Os Gracindos'' ao lado de seus filhos, Pedro e Gabriel. ''A ideia é contar a história do ator brasileiro a partir da nossa família'', explica Pedro, enaltecendo a dedicação que o avô tinha à carreira.
Uma profissão que Paulo - ou Pelópidas, seu nome de batismo - seguiu contra a vontade do pai. Seu Demócrito, que chegou a ser prefeito de Maceió, jurou que nunca um filho seu pisaria em um palco. Mas Paulo, que adotou esse nome mais simples para o entendimento do público, se mudou de Alagoas, onde cresceu, para o Rio de Janeiro, cidade onde nasceu. Na capital fluminense, chegou a dormir na rua e a roubar leite da porta da casa dos outros para sobreviver, até que ingressou no Grupo do Teatro Ginástico. Daí para ser descoberto pelo rádio não demorou muito. ''Acho que eu, meus irmãos e meu pai herdamos dele nosso amor pelo trabalho. Meu avô era um homem completamente apaixonado pela arte e deixou isso transparente do início ao fim da sua vida'', analisa Daniela Gracindo, que produziu o documentário ''Paulo Gracindo - O Bem Amado''.
O sucesso nas rádios começou antes do surgimento da tevê. Foi na década de 1940 que Paulo Gracindo ganhou prestígio como radioator e, assim, estabilidade financeira. Colecionou trabalhos notáveis em radionovelas, sendo a mais conhecida delas ''O Direito de Nascer'', quando interpretou o sofrido protagonista Albertinho Limonta. Foi na Rádio Nacional também que se firmou como radialista. E começou a atuar em um dos mais marcantes personagens cômicos de sua carreira, no programa ''Balança Mas Não Cai'', no quadro dos saudosos ''Primo Rico e Primo Pobre'', onde vivia o parente endinheirado e contracenava com o famélico Brandão Filho. O sucesso foi tanto que o programa ganhou espaço na tevê em 1968, na Globo. ''O humor do Paulo era impressionante. Às vezes, saíamos de um espetáculo e ele dizia que queria comer de graça. Eu perguntava o que ele queria jantar, ele escolhia, íamos para o restaurante e, no final, sabendo que a conta viria zerada, ele se oferecia para pagar'', conta, rindo, Rogério Fróes, um dos principais parceiros de Paulo Gracindo nos palcos.
Curiosamente, os dois últimos trabalhos de Paulo Gracindo na tevê - excluindo-se uma ou outra participação especial - estarão no ar em agosto. Atualmente, já se confere a reprise de ''Vamp'', no canal a cabo Viva. E, a partir de 10 de agosto, a mesma emissora reexibe a minissérie ''Agosto'', que foi dirigida por Paulo José. ''Tinha uma particularidade que ninguém sabia: ele estava cego'', contou Paulo José, recentemente, em programa de tevê em homenagem ao centenário de Paulo Gracindo. Enxergando ou não, Gracindo deixou de herança uma série de personagens que sempre merece ser lembrada. Seja na tevê, no teatro ou no rádio.

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