No ano em que completaria 100 anos, o jornalista Austregésilo de Athayde é homenageado pela filha Laura Sandroni no livro ‘‘Athayde - O Século de um Liberal’’, escrito por ela e pelo marido Cícero Sandroni e publicado pela Agir. Conhecido principalmente como o eterno presidente da Academia Brasileira de Letras, cargo que ocupou durante 35 anos, o pernambucano Belarmino Maria Austregésilo Augusto de Athayde é desmitificado pela filha. ‘‘Queria acabar com a imagem de eterno presidente da ABL. Meu pai foi mais do que isso’’, afirma Laura. Entre seus feitos, a escritora infantil destaca a participação do jornalista como um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a luta pela liberdade de imprensa.
Para comprovar a importância histórica de Austregésilo, Laura contou com o grandioso arquivo montado cuidadosamente por Maria José, a Jujuca, mulher de Athayde e mãe de Laura, desde a época que era noiva do jornalista. ‘‘Foi um trabalho a oito mãos: eu, Cícero, minha mãe e meu pai’’, brinca Laura. Todas as correspondências do jornalista, além dos artigos e notícias publicados na imprensa estão reproduzidos no livro, acompanhados do contexto em que foram escritos. ‘‘Queríamos que o leitor entendesse o momento histórico a que meu pai se referia em seus artigos’’, explica Laura.
Como foi feita a pesquisa para escrever a biografia?
Laura Sandroni - Primeiro eu pensei em fazer um levantamento dos artigos dele sobre os principais acontecimentos históricos do Brasil e do mundo, desde que ele começou a escrever em 1920 até sua morte, aos 94 anos, em 93. Como ele viu os aspectos principais da história, da economia e da literatura, já que escrevia no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro. A partir daí, comecei a mexer nos arquivos que minha mãe guardava sobre ele desde que eram noivos. Acabei descobrindo que o arquivo era mais rico do que eu imaginava, pois, além dos artigos, havia também recortes de jornais e revistas. Então, decidi situar o que meu pai escreveu em sua vida no contexto histórico da década de 40 até hoje, para que as pessoas que lerem entendam em que situação ele escreveu determinado artigo.
A correspondência pessoal de seu pai também foi reproduzida?
Laura Sandroni - Sim. Tudo está publicado na íntegra. Desde as cartas que meu pai escrevia para amigos, como os escritores George Bernaneause, francês que morou no Brasil durante oito anos, Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freire, até as cartas de amor que ele mandava para minha mãe desde que eles eram noivos.
O que mais a surpreendeu durante as pesquisas?
Laura Sandroni - Como meu pai se casou com 33 anos, só conheci o lado maduro dele, a pessoa séria, que passava a maior parte do tempo na redação do Jornal do Commercio. Quando comecei a pesquisar os arquivos de minha mãe, descobri uma criança travessa, depois um homem vaidoso e um jornalista combativo. Foi muito bom descobrir esse outro lado.
Você presenciou alguns fatos importantes da vida profissional de seu pai?
Laura Sandroni - Eu presenciei alguns acontecimentos como a prisão de meu pai em 1944, no fim do governo de Getúlio Vargas. Ele tinha sido preso às vésperas do Natal. Eu me lembro, então, que no dia 25, minha mãe me levou para cear com meu pai na prisão. Ele nos contou que reuniu todos os presos e carcereiros para rezarem. Outro fato que presenciei foi a seção de encerramento da terceira reunião da ONU para a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em Paris. Eu tinha 14 anos. Lembro de ter ficado emocionada com o discurso de encerramento que meu pai fez em francês para apresentar a Declaração do Direitos Humanos, redigida por eles.
O fato de você ser filha de Austregésilo não poderia comprometer a imparcialidade do livro?
Laura Sandroni - Não. Procurei ser o mais objetiva possível e me portar como intermediária entre as idéias de Athayde e o público. Eu sempre fui uma pessoa muito objetiva e tentei levar isso para o texto. A minha intenção, durante os dois anos de trabalho para escrever essa biografia, era não influir emocionalmente no texto. Meu marido brincava comigo tentando estimular a minha memória emotiva, mas eu achava que devia ser imparcial na biografia. E acho que consegui.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasLaura Sandroni: ‘‘Quando comecei a pesquisar os arquivos de minha mãe, descobri uma criança travessa, depois um homem vaidoso e um jornalista combativo’’
Laura Sandroni fala sobre ‘‘Athayde - O Século de um Liberal’’, livro que escreveu em homenagem ao pai

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