UM SAXOFONISTA CHEIO DE HISTÓRIAS
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quarta-feira, 14 de março de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A história começou no auditório da Rádio Londrina, em meados da década de 50. Ali, o saxofone de Apóstolo Secco já podia ser ouvido em eventuais programas de auditório. Das apresentações locais, Secco enveredou por uma trajetória longa e diversificada, alcançado palcos de vários países, chegando a tocar com nomes como o trompetista Wynton Marsallis. No trânsito entre a música brasileira e o jazz, Apóstolo Secco é protagonista de uma história com trilha sonora para ninguém botar defeito.
Mesmo afastado a última vez que veio à cidade, antes do Carnaval, visitar parentes, ele se apresentou no Bar Valentino , o saxofonista mantém no Paraná uma referência afetiva, como ponto de partida para uma carreira que escavou um espaço precioso no meio musical, englobando apresentações em lugares tão diversos quanto Rio de Janeiro, Roma, Cairo, Atenas, Istambul, Tailândia e Malásia. Secco rodou meio mundo com seu saxofone.
A reconstituição de uma história tão rica em detalhes é fragmentada. O saxofonista vai lembrando de uma cascata de fatos que atropelam a ordem cronológica. Em 1952 eu fui para o Rio de Janeiro, sou da época pós-cassinos, toquei na Rádio Nacional, na Mairynk Veiga e na Boate Carlos Machado, onde, na época, estava em cartaz o Grande Otelo, recorda.
De Londrina, Secco passou por Presidente Prudente, Bauru e São Paulo. Quando chegou no Rio de Janeiro, perguntaram de onde ele vinha. O saxofonista respondeu: De Bauru. A cidade virou apelido.
Nos anos 50 e 60, Bauru tocou com os melhores nomes do eixo Rio-São Paulo, participando, inclusive, da histórica orquestra montada por Dick Farney. Posteriormente, na televisão, tocou no Moacir Franco Show e transitou entre os programas de Silvio Santos, Flávio Cavalcanti, Raul Gil, Sargentelli e Lolita Rodrigues. Também foi maestro de um programa dividido entre os cantores Silvio Brito e Fábio Jr. Em Mônaco, em 1982, Bauru participou de um concerto no circuito da Fórmula 1.
Certa vez estávamos em Roma, no Hotel Anglo-Americano, quando vimos o quarteto do Dexter Gordon. O Dexter estava em um hotel próximo. Reunimos o contrabaixista e o pianista dele e tocamos no hall do hotel. O Dexter Gordon veio em seguida e queria me levar para Montreux. Mas eu tinha um contrato, não podia ir, comenta.
Bauru ainda dividiu palcos com Michel Legrand, Johnny Mathis, Wynton Marsallis, Hermeto Pascoal, Nivaldo Ornellas, Roberto Sion, Vitor Assis Brasil, Zimbo Trio... Em meia hora de bate-papo os nomes se multiplicam.
Integrante da Bossa Nova, Bauru tocou por algum tempo com João Donato, Baden Powell, Durval Ferreira e Maurício Einhorn. Eu participei do movimento da bossa nova, o Tom Jobim sempre ia assistir, o João Gilberto também, o pessoal andava entrosado com essa turma.
A paixão, porém, sempre foi o jazz. Mas, no país, Bauru teve dificuldades em sobreviver com o gênero: O jazz é uma música com um campo restrito, principalmente no Brasil. Em alguns países eu vivi de jazz. No Brasil a gente tem que tocar o rotineiro, o cotidiano.
Analisando o cenário musical de hoje, o saxofonista acha que não conseguiria se destacar pelas suas preferências. Eu não sobreviveria tocando nesta época porque não existe instrumental com trombone, sax e trompete. O meu público é restrito, ele ainda gosta de jazz. Enquanto não prepara outra visita surpresa ao Paraná, Bauru exibe a experiência musical acumulada mundo afora na casa Via Blue, em São Paulo.


