ReproduçãoHerançaA 1.400 metros de altitude, o conjunto arquitetônico em estilo gótico-colonial formado pelo colégio, seminário e pela igreja, construído entre os séculos 18 e 19, reina no lugar até hojeA serra de picos rochosos, cheia de cachoeiras, grutas, abismos e piscinas naturais compõe um cenário sagrado que se sobressai na paisagem rural de Minas Gerais. É como se o lugar, com características naturais distintas, tivesse surgido repentinamente, em um passe de mágica.
Curiosamente, um dos morros da serra lembra o perfil de uma cara gigante. Não por acaso, portanto, Caraça foi a palavra que os bandeirantes julgaram apropriada para batizar a região que abriga, hoje, um dos parques naturais mais excêntricos do País. A 120 quilômetros a leste de Belo Horizonte, no município de Santa Bárbara, o Caraça é um mundo à parte, com memórias de mais de dois séculos.
Além de atrair os desbravadores de ouro que percorriam a região, chegou ao Caraça, em 1774, irmão Lourenço, um missionário que, diz a lenda, era foragido da corte portuguesa. Ali ele iniciou a construção de uma capela. Depois de sua morte, em 1881, o jesuíta deixou sua obra, dedicada à Nossa Senhora Mãe dos Homens, em testamento, para Dom João VI. Este, por sua vez, cedeu a área aos padres lazaristas. A partir de então, nasceu em meio à flora e fauna diversificadas, a 1.400 metros de altitude, o conjunto arquitetônico em estilo gótico-colonial formado pelo colégio, seminário e pela igreja, que reinam no lugar até hoje.
O Colégio do Caraça ganhou fama em todo o Brasil pela severidade e pelo alto nível de ensino. Durante quase 150 anos, formou figuras da elite nacional, políticos e até os ex-presidentes Afonso Pena e Artur Bernardes. Por conta de um incêndio, em 28 de maio de 1968, o colégio foi desativado. Mais tarde, o prédio foi restaurado e o acesso, antes estrada de terra, foi asfaltado, facilitando a vinda de curiosos visitantes.
Hoje, o Caraça guarda as relíquias do passado. Há um museu com objetos sacros, maquinário e fotos antigas, além de biblioteca, catacumbas, claustros, calvário e uma igreja neogótica onde são celebradas três missas por dia. Entrar lá é ingressar em uma época temida e gloriosa, num mundo que continua isolado, onde o tempo parece ter parado.
No lugar do colégio, uma parte do prédio antigo e da ala nova funcionam, desde os anos 70, como pousada. ‘‘As muitas estrelas estão só no céu’’, dizem os diretores, padres lazaristas, dois deles ex-alunos. Quem se hospeda ali pode sentir na pele um pouco a maneira como os estudantes viviam. Praticamente em regime de internato, paga-se uma diária com pensão completa. No lugar da recepção existe uma secretaria. Os apartamentos são simples e as refeições feitas em um refeitório, em horários fixos. Deve-se seguir, também, alguns regulamentos impostos pelos padres. Como não andar pela casa em trajes curtos e sem camisa e fazer silêncio nos aposentos e corredores a partir das 22 horas. Outro aviso: os portões do parque fecham religiosamente às 21 horas.
Os que não quiserem aderir a esta forma de hospedagem rigorosa têm uma opção mais hospitaleira a apenas 1,5 quilômetro da entrada do Caraça. A Pousada Pico do Sol, cujo nome é uma homenagem ao ponto culminante do parque, a 2.100 metros de altura, dispõe de sete apartamentos aconchegantes em um sítio tipicamente mineiro. O proprietário, José Antônio Martins, o Toninho, que nasceu na região, dá dicas de passeios ecológicos e até oferece seus serviços de guia.

mockup