UM SAMURAI DE SUCESSO
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
É extremamente comum encontrar pessoas que torcem o nariz para livros grossos. Em alguns casos, demonstram verdadeiro pavor em ter nas mãos livros com mais de 200 páginas. Aí surge uma pergunta: um livro de 1.800 páginas pode se transformar em best-seller no Brasil? A lógica diz que não, seria algo praticamente impossível.
Mas a lógica pode ter seus segredos e um livro de 1.800 páginas possui condições de se tornar um best-seller. O que prova isso é o sucesso do romance Musashi do escritor japonês Eiji Yoshikawa. Publicado pela Editora Estação Liberdade com 1.800 páginas, o livro entrou na lista dos mais vendidos dos principais jornais e revistas do país. O lançamento do segundo volume, em dezembro último, veio confirmar o interesse que causou o primeiro volume, publicado em setembro.
Musashi foi publicado originalmente como folhetim no decorrer de quatro anos, entre 1935 e 1939, num dos principais jornais japoneses da época, o Asahi Shinbum, em 1013 episódios. Posteriormente ganhou a forma de livro tornando-se um romance histórico de enorme popularidade. As estimativas indicam que Musashi vendeu mais de 120 milhões de exemplares, a obra literária mais vendida da história do Japão. Recebeu 10 versões cinematográficas de vários diretores em diferentes épocas.
Filho de samurai desempregado, Eiji Yoshikawa nasceu em 1892 na província de Kanagawa, na região de Tóquio. Ainda jovem ingressou na carreira jornalística e com 22 anos de idade começou a se dedicar, nas horas vagas, à literatura. Escolheu um gênero específico, contos e romances históricos. Logo após a publicação de Musashi se tornou um dos escritores japoneses mais populares do século 20. O escritor já foi comparado várias vezes a Jorge Amado, ou seja, Eiji Yoshikawa estaria para a literatura japonesa assim como Jorge Amado estaria para a literatura brasileira.
Musashi é ambientado num período histórico entre os séculos 16 e 17. Uma época em que o Japão enfrentava uma forte crise, com um grande contingente de samurais vagando pelo país sem trabalho. O romance é baseado na vida de um dos mais famosos samurais do Japão que viveu aproximadamente entre 1584 e 1645: Miyamoto Musashi. Defensor de uma rígida autodisciplina para o aprimoramento das artes marciais, deixou escrito uma cultuada obra sobre a arte de manejar a espada, Gorin no Sho (publicada no Brasil com o título de O Livro dos Cinco Elementos pela Cultura Editores).
No decorrer do dois volumes de Musashi, Eiji Yoshikawa narra a história de um garoto rebelde, selvagem e violento, que ao longo de uma longa trajetória de aprendizado, repleto de combates perigosos e aventuras, atinge a plenitude física e espiritual (fundamentada no Zen-Budismo) tornando-se um grande sábio e guerreiro imbatível. Sempre vagando sozinho como um autêntico andarilho recluso.
A edição brasileira de Musashi é a primeira que mantém, além do Japão, a edição integral. Em outras países pode ser encontrada apenas uma versão abreviada originária de uma adaptação norte-americana.
A popularidade histórica que Musashi possui no Japão e agora conquistada no Brasil pode ser atribuída, em grande parte, ao estilo característico dos folhetins. Com uma linguagem clara e direta, apresenta os ingredientes que fazem das novelas narrativas populares. Se por uma lado, na história narrada por Eiji Yoshikawa não há complexidade que exija a extensão de 1.800 páginas, por outro possui a capacidade de entreter o leitor e levá-lo a desconsiderar seu tamanho.
Musashi - Volume I de Eiji Yoshikawa, Editora Estação Liberdade, tradução de Leiko Gotoda, 922 páginas, R$ 48,00.
Musashi - Volume II de Eiji Yoshikawa, Editora Estação Liberdade, tradução de Leiko Gotoda, 888 páginas, R$ 48,00.





