Um samurai de corpo e alma
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
A Editora Estação Liberdade está lançando um dos romances mais populares da literatura japonesa, Musashi, do escritor Eiji Yoshikawa. Obra narra a história de um lendário samurai do século 17
A figura do samurai japonês ergueu um verdadeiro castelo no imaginário da cultura ocidental. Com uma visão romanceada, baseada no heroísmo e na aventura, a imagem do samurai foi diluída pelas mais distintas manifestações artísticas, da novela ao cinema, da poesia à história em quadrinhos.
Agora chega às livrarias brasileiras a figura de um samurai genuíno, criada dentro da própria cultura japonesa. Ou, em alguns aspectos, diluída dentro da própria cultura japonesa de massa. Trata-se do romance épico de cunho histórico Musashi de autoria do escritor japonês Eiji Yoshikawa (1892-1962).
Lançado pela Editora Estação Liberdade, em edição integral traduzida diretamente do japonês, o livro é um catatau de 1.800 páginas dividido em dois volumes. O primeiro deles (Volume 1) já está nas livrarias, o segundo (Volume 2) será lançado em outubro.
Musashi foi publicado originalmente em forma de folhetim no decorrer de quatro anos, entre 1935 e 1939, num dos principais jornais japoneses da época, o Asahi Shinbum, em 1.013 episódios. Posteriormente ganhou a forma de livro tornando-se um romance histórico de enorme popularidade.
As estimativas indicam que Musashi vendeu mais de 120 milhões de exemplares, a obra literária mais vendida da história do Japão. Recebeu 10 versões cinematográficas de vários diretores em diferentes épocas. Filho de samurai desempregado, Eiji Yoshikawa nasceu em 1892 na província de Kanagawa, na região de Tóquio.
Ainda jovem ingressou na carreira jornalística e com 22 anos de idade começou a se dedicar, nas horas vagas, à literatura. Escolheu um gênero específico, contos e romances históricos. Logo após a publicação de Misashi se tornou um dos escritores japoneses mais populares do século 20. O escritor já foi comparado várias vezes a Jorge Amado, ou seja, Eiji Yoshikawa estaria para a literatura japonesa assim como Jorge Amado estaria para a literatura brasileira.
O romance Musashi é baseado em fatos reais, no período histórico entre os séculos 16 e 17. Uma época em que o Japão enfrentava uma forte crise, com um grande contingente de samurais vagando pelo país sem trabalho, na miséria. O motivo era a queda de muitos senhores feudais. O livro é baseado na vida de um dos mais famosos samurais do Japão que viveu nesta época, aproximadamente entre 1584 e 1645: Miyamoto Musashi.
Defensor de uma rígida autodisciplina para o aprimoramento das artes marciais, deixou escrito uma cultuada obra sobre a arte de manejar a espada, Gorin no Sho (publicada no Brasil com o título de O Livro dos Cinco Elementos pela Cultura Editores).
No decorrer dos dois volumes de Misashi, Eiji Yoshikawa narra a história de um garoto rebelde, selvagem e violento, que ao longo de uma longa trajetória de aprendizado, repleto de combates perigosos e aventuras, atinge a plenitude espiritual e torna-se um grande sábio, guerreiro imbatível, Musashi.
O romance tem início na sangrenta batalha de Sekigahara no fim do século 16. De uma montanha de cadáveres surgem dois guerreiros feridos, dois garotos, os amigos Takezo e Matahachi. Após se convalescerem, procuram voltar para casa, o vilarejo de suas famílias.
No meio do caminho, um deles, Matahachi, seduzido pelo desejo, resolve viver ao lado de uma mulher abandonando a família. Takezo, o mais rebelde, violento e selvagem dos dois, segue caminho sozinho com o objetivo de avisar as respectivas famílias de que sobreviveram à guerra.
Ao atravessar uma das fronteiras, Takezo passa a ser perseguido violentamente pelas milícias. Para sobreviver, precisa lutar e matar. Graças a sua força física, ao seu sangue frio, ao ímpeto selvagem e violento, vence várias lutas refugiando-se nas matas vivendo como um animal humano. Depois de muita resistência é preso por um monge zen-budista que utiliza apenas uma arma: as palavras.
Como pena, é amarrado no alto de uma árvore em praça pública para morrer de fome e sede. Consegue suportar a tortura durante dias e, numa conversa filosófica zen-budista com o mesmo monge que o prendeu, Takezo atinge uma espécie de iluminação. A partir desse instante revolve mudar totalmente de vida.
Com ajuda de Otsu, a jovem prometida como esposa do amigo Matahachi, agora abandonada, consegue soltar-se da árvore durante a madrugada e fugir. Otsu acompanha Takezo em sua fuga num pacto. Numa parte do caminho precisam se separar, mas marcam um encontro em local determinado.
Nesse trajeto Takezo encontra o monge Takuan que o convence a dominar sua força física através do aprimoramento do espírito. Takezo aceita permanecer fechado numa masmorra do monastério, sozinho e penitente, lendo uma biblioteca inteira e refletindo sobre os princípios da vida e dos homens.
O jovem Takezo permanece durante três anos fechado nesse recinto, sem contato humano, recebendo livros e comida por baixo da porta. Ao sair não é mais um jovem, mas um homem com a vida transformada. Decide tornar-se um rounin (ronin ou rônin), um samurai solitário e nômade, sem senhor. Ao se despedir do mosteiro, recebe um novo nome, Miyamoto Musashi, e uma espada nobre.
Em sua nova vida errante, a primeira pessoa que encontra é justamente a jovem Otsu, que o esperou no local combinado durante três anos. Otsu deseja seguir ao lado do Takezo, agora Musashi, declarando seu amor. Mas o novo samurai está preso ao destino que escolheu, precisa seguir sozinho, um rounin em busca de aprendizado, em busca de desafios. Sublima seu amor por Otsu e segue sozinho.
O resultado é que ambos passam a perambular pelo Japão, solitários. Musashi empunhando sua espada, Otsu sua flauta. Pode parecer um roteiro de novela, mas isso é só o começo. O rounin Musashi perambula pelas cidades desafiando nobres samurais, lutando e vencendo. Desenvolve toda sua arte e técnica sozinho. Torna-se um autêntico recluso, andarilho, um dos mais temidos samurais errantes. Sempre em postura de aprendizado, seguindo a tradição zen-budista.
O caminho de Musashi é longo. Desperta o amor de Otsu e a dedicação de Joutaro, um garoto que o elege como mestre. Desperta o ódio de Osugi, uma velha e megera matriarca, mãe de seu amigo Matahachi, e de uma legião de samurais de diferentes escolas de espadachins, entre elas a escola Yoshioka.
O autor dividiu a obra total em sete partes: A Terra, A Água, O Fogo, O Vento (Volume I), O Vento, O Céu, As Duas Forças e A Harmonia Final (Volume II). As cinco primeiras correspondem aos elementos básicos do Budismo, representam os ciclos que o espírito humano percorre até atingir a perfeição. O caminho percorrido por Musashi.
Para manter a regularidade de uma narrativa tão extensa, 900 páginas neste primeiro volume, Eiji Yoshikawa utiliza uma fórmula literária bem conhecida: a trama pautada na aventura, na ação. O escritor não baseia sua narrativa numa lenta descrição, mas na agilidade da ação numa linguagem direta. Talvez isso esteja vinculado ao fato de Musashi ter sido escrito em forma de folhetim, uma forma que necessita despertar o interesse do leitor para o episódio seguinte.
Ou, seguindo as palavras de Sun Tzu (em A Arte da Guerra), a garantia de não sermos derrotados está em nossas próprias mãos, porém a oportunidade de derrotar o inimigo é fornecida pelo próprio inimigo.
Musashi - Volume I de Eiji Yoshikawa, Editora Estação Liberdade, tradução integral do japonês de Leiko Gotoda, 924 páginas, R$ 48,00.





