O primeiro contato já seria o suficiente para qualquer um associar Cláudio Seto ao Japão; afinal de contas, seus traços orientais e a maneira de se vestir remetem a um samurai. E ele é mesmo. E não somente isso. Jornalista, chargista, ilustrador, escritor, fotógrafo, pesquisador, bonsaísta... Um verdadeiro agitador cultural, sempre disposto a exaltar as raízes nipônicas por aqui. No próximo dia 26, lança o livro ''Lendas do Japão'', em Curitiba, e em julho recebe homenagem do Troféu HQMix por ser um dos introdutores do mangá no Brasil.
Cláudio Seto nasceu Chuji Seto Takeguma, em 1994, em Guaiçara, no interior paulista. Começou a trabalhar como desenhista industrial e publicitário e mudou o nome para Cláudio para poder receber o diploma no primário. A partir de 1967, produziu os quadrinhos ''O Samurai'' e ''Ninja, o Samurai Mágico'', pela editora Edel. Para muitos, seus trabalhos iniciais prenunciaram a invasão mangá no Brasil.
De lá pra cá, Seto incursionou pela política - foi eleito vereador de Guaiçara por duas vezes -, pelas artes plásticas, pelo jornalismo paranaense. Atualmente, toca seus projetos em Curitiba, onde mora com sua esposa e os três filhos. Uma de suas muitas ocupações é registrar lendas japonesas, muitas delas antes preservadas apenas por meio de contos orais.
''Eu tenho mais de 200 lendas escritas e ilustradas. O livro é, na verdade, a primeira edição com uma coletânea das lendas publicadas no jornal Nippo Brasil'', diz Seto. O livro a que se refere é ''Lendas do Japão'', com lançamento previsto em Curitiba e Londrina, e que reúne 15 lendas japonesas em um formato acessível, quase didático, cheio de ilustrações, produzidas pelo próprio autor.
''Comecei a escrever as lendas em 2002, pensando mesmo na publicação de livros. Muitas delas eu tinha anotado, tenho muitos livros sobre lendas japonesas. Todas vêm de lendas que existem, uma ou outra coisa é que adaptei'', diz Seto ao afirmar que foram necessárias apenas algumas alterações para tornar a leitura mais prazerosa e compreensível para leitores do ocidente.
Seto está sempre presente nas comemorações nipônicas em Curitiba, já que é membro da Sociedade Cultural e Beneficente Nipo-Brasileira em Curitiba. O pesquisador lançou em 2002 o livro ''Ayumi - Caminhos Percorridos'', um relato sobre a história da imigração japonesa no Estado, publicado pela Imprensa Oficial do Paraná, e prepara mais um, agora com 900 páginas, realizado mais uma vez com a parceria da jornalista Maria Helena Uyeda.
''O livro ''Hai-Ne'' vai ter 900 páginas em dois volumes e foi escrito a quatro mãos. Deve sair esse mês ainda. É um livro sobre a história da imigração, diferente de umas publicações picaretas de qualquer professorzinho de faculdade que escreve o que quer'', irrita-se Seto, ao se referir à escassez e imprecisão de material sobre o assunto.
Aliás, a falta de conhecimento da população, tanto de descendentes quanto de outras etnias, sobre a história dos imigrantes em plena celebração de Imin-100 é alvo de crítica por parte do artista. ''A própria colônia (japonesa) não estava preparada para o Imin. O que tem de escolas e gente procurando a colônia para saber sobre a história da imigração... Só que nem mesmo a colônia tem nada sobre essa história'', constata.
Seto também não concorda com o foco de muitas homenagens, que têm em primeiro plano o Japão, ao invés do cotidiano das colônias. ''As pessoas estão procurando e mostrando muito a imagem do Japão e tudo mais. Mas e a colônia? Não mostram muito o que está acontecendo na colônia e sua história.''
Premiado pela segunda vez ao Troféu HQMix, Seto minimiza a homenagem. ''Já fui homenageado uma vez, no começo do HQMix. Acho que essa (nova) homenagem é culpa do momento, coisa do centenário''. E aproveita também para reclamar de quem costuma generalizar qualquer trabalho feito por nipodescendentes como mangá. ''Tem muito disso, das pessoas relacionarem o que faço com o mangá. Mas eu não faço mangá, assim como o Júlio Shimamoto, que é um representante japonês nos quadrinhos, também não faz. Qualquer descendente ou japonês que desenha já chamam o trabalho de mangá, mas não é assim, o Shimamoto tem influência européia.''
Apesar das críticas, as comemorações, que se intensificaram nas últimas semanas, trazem, segundo Seto, um bom momento para a colônia japonesa e também para a população em geral. ''O pessoal está mais preocupado com o Japão por causa do momento. Acho que há um interesse geral por causa do centenário (da imigração japonesa). O Almanaque do Centenário da Imigração Japonesa, que estava nas bancas há pouco tempo, agora está esgotado'', destaca. ''O momento é bom porque o pessoal também pode ver outro lado da cultura japonesa. Antes, o que se mostrava era só história de luta e sofrimento. Hoje mostra-se mais a comida, a escultura, a cultura japonesa mesmo'', complementa.
A invasão japonesa e sua cultura baseada na espiritualidade, na filosofia e na sabedoria é, de acordo com o pesquisador, um processo natural do conhecimento humano. ''Isso (a popularização da cultura japonesa no Brasil) já vinha acontecendo há muito tempo. É o processo ''Ineyo'', que na China o pessoal chama de Yin-Yang, aquela coisa dos opostos. O Ocidente avançou muito na parte técnica e o Oriente na espiritualidade. Agora, o que está acontecendo é o inverso: à medida que um procura a tecnologia, o outro busca a filosofia'', reflete Seto.

SERVIÇO
- Lendas do Japão
Autor - Claudio Seto
Quando - Dia 26, 19h30, em Curitiba; e 6 de julho, às 17h, em Londrina.
Onde - Livrarias Curitiba do Shopping Estação, em Curitiba, e na Livraria Porto Megastore do Catuaí Shopping Center, em Londrina

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