Antônio Mariano Júnior
Nem tudo está perdido. Há sambistas que ainda preferem andar na contramão a seguir por atalhos perniciosos indicados por equivocados midas do mundo fonográfico. Como Jorge Aragão, compositor da mais nobre linhagem do samba que está lançando seu 11º disco, ‘‘Tocando o Samba’’ (Indie Records) - um trabalho feito de melodias, harmonias e versos requintadíssimos. Todo acústico. Violão de sete cordas e cavaquinhos dão lugar a guitarras e baixos. A percussão vem sem maiores firulas. Trocando em miúdos, ‘‘Tocando o Samba’’, como o próprio nome diz, é um disco de samba. Não sambão, samba romântico sem deixar de ser buliçoso. E o que é melhor: samba que trilha pelo caminho da delicadeza.
Com ‘‘Tocando o Samba’’, Jorge Aragão fecha a trilogia iniciada em 97 com ‘‘Sambista a Bordo’’ que lhe rendeu o primeiro disco de ouro - mais de 100 mil cópias vendidas. O novo trabalho era para sair ao vivo tendo como pano de fundo a comemoração dos 50 anos de vida do cantor e compositor. Teria também convidados ilustres - Alcione, Beth Carvalho, Elza Soares, só para citar alguns.
A gravadora iria colocar todo seu aparato tecnológico para registrar os shows e transformá-los em disco. Aragão achou por bem não utilizar esse expediente. ‘‘Preferi usar toda a tecnologia da gravadora para mostrar o samba que sei fazer. Usei essa tecnologia para apurar e realçar o som do cavaquinho e dos demais instrumentos’’- disse ele, por telefone, à Folha2.
O resultado foi dos mais felizes. Porém, o cantor e compositor afirma que se tivesse mais tempo iria se debruçar quantas horas fosse preciso para realçar o som do violão de 7 cordas. Coisas de perfeccionista. ‘‘Tocando o Samba’’ está bom do jeito que está.
A atmosfera musical é predominantemente intimista, cativante. Já na primeira faixa - de um total de 14 - Jorge Aragão destila categoria e sensibilidade na belíssima ‘‘Perfume e Música’’, de sua autoria. Mas há outros bons momentos como o delicioso pagode ‘‘Vendendo a Alma’’ (dele), no melhor estilo ‘‘samba de mesa de bar’’, ou mesmo a homenagem ao Boi de Parintins (manifestação folclórica de Manaus) na toada ‘‘Parintins para o Mundo Ver’’ (em parceira com Ana Paula Perrone).
Aragão assina quase todas as composições, seja sozinho ou em parceria. Muitas falam de amor. ‘‘Romantismo é o meu forte. Nunca fui partideiro. Ficaria perdidinho se precisasse versar com o Zeca Pagodinho, por exemplo’’ - admite. Mesmo em sambas com andamentos mais rápidos não há maiores malabarismos percussivos.
Em ‘‘Moleque Atrevido’’ (dele com Flávio Cardoso e Paulinho Rezende) Aragão dá seu testemunho de bamba e como tal exige respeito. Recado aos pagodeiros de butique? Ele diz que não. ‘‘Para mim o que importa é o resultado final. Ou seja, esses meninos no fundo estão cantando samba um pouco diferente que na minha época era chamado de samba-canção e hoje é chamado de samba romântico. Mas a proposta deles é válida, sim’’ - afirma citando os grupos Exaltasamba e Sensação como seus favoritos. ‘‘São os mais fortes de todos os grupos’’ - frisa.
A diplomacia vai até certo ponto. O fato de não apontar maiores fragilidades nos grupos de pagodes, Aragão admite que não tem paciência para ouvir tudo o que as rádios às vezes arrotam nos ouvidos alheios. ‘‘Eu não aguento ouvir, só para citar um exemplo, ‘O Pinto do Meu Pai’. Agora, se esse tipo de música toca é porque alguém está precisando disso’’ - analisa.
Mesmo com 11 discos gravados, Jorge Aragão é mais conhecido como compositor. Suas músicas foram gravadas por Ney Matogrosso, Alcione, Dona Ivone Lara, Negritude Júnior e Art Popular, entre outros. Entre esses outros, Beth Carvalho, que consagrou a sua ‘‘Coisinha do Pai’’ na década de 80 e cuja voz e música foram escolhidas para ‘‘acordar’’ o robô-jipe Sojourner que enviou fotos de Marte para a Nasa, em 97.
A formação e informação musical de Jorge Aragão é eclética. Quer dizer, o samba é sua fonte mas, como ele mesmo explica, seu fio melódico passa também pelas influências das chamadas ‘‘músicas orquestradas de cinema’’. ‘‘Não sou o típico sambista que desceu o morro para mostrar seu samba no asfalto. Nunca morei em morro, aliás. Sou da geração do baile’’ - admite.
Tanto zelo com letra e melodia fez com que o cantor e compositor fosse carinhosamente chamado como ‘‘poeta do samba’’ ou, vejam só, como ‘‘Chico Buarque do Samba’’. ‘‘Em nível cultural não passei do segundo ginasial, como se dizia antigamente. Aceito tais elogios mas quem sou eu, por exemplo, para ser comparado a Chico Buarque?’’ - finaliza.

mockup