Um roteiro na mão e R$ 4 mil no bolso
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terça-feira, 19 de abril de 2005
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Nos anos 60, o cineasta brasileiro Glauber Rocha consagrou como máxima do chamado Cinema Novo a célebre ''Uma idéia na cabeça, uma câmera na mão''. Em Londrina, um casal substituiu o equipamento de filmagem por revistas de turismo, mapas e um carro motor 1.0, aliados a uma boa dose de planejamento e organização.
Quando trocaram alianças, há cinco anos, o porteiro Adriano de Lara Lucinda, de 29 anos, e a professora do ensino público Juliana Ronqui, de 27, decidiram passar a lua-de-mel em Buenos Aires. A escolha foi selada com um pacote de agência. No final de 2004, o casal resolveu resgatar o passeio de forma diferente e, sobretudo, bem longe das turbinas de avião. No começo do ano, trocaram o veículo usado por um mais novo, mas de segunda mão. Em 10 meses, juntaram tudo o que puderam em uma caderneta de poupança e, em dezembro, arrumaram as malas.
''Vi em uma revista lá na Biblioteca Pública um caminho alternativo para Buenos Aires. Pela rota, passaríamos pelo Sul do Brasil, desceríamos até o Chuí e entraríamos no Uruguai, por onde chegaríamos até a Argentina'', conta Adriano. Reação? Pelo jeito, isso foi o que ele menos esperou da esposa. ''Ela achou que era brincadeira minha quando falei dos planos, mas logo em seguida começamos a guardar o dinheiro que seria necessário'', lembra.
Atenta às minúcias de várias reportagens sobre a capital argentina, a dupla chegou ao montante de R$ 4 mil para os cerca de 4 mil quilômetros rodados por quatro países, em 15 dias de viagem.
Roteiro detalhado e pronto, saíram de Londrina no dia 18 de dezembro com destino a parada e pouso de dois dias em Florianópolis (SC). De lá, o casal partiu para Gramado (RS), de onde, depois do mesmo período, seguiram para o Chuí, extremo-sul do País. A noite de descanso no pequeno município, pelo jeito, parece ter rendido recordações extras para o porteiro, que à tarde trabalha também como oficial de cobrança. ''Era engraçado que, em meio a uma área praticamente deserta, havia montes de lojas de grife internacional que nem em Londrina a gente encontra. Baita contraste'', considera.
A cerca de 200 quilômetros dali, os três dias que se seguiram foram passados em Punta Del Este, point badalado no litoral uruguaio. Novo contraste, afirma o londrinense, mas agora nas condições climáticas: em pleno verão, foram 9ºC enfrentados com gorros e cachecóis em Gramado, contra o calor de Punta, cenário para a maioria das fotos praianas do casal.
Curiosamente, o Natal de Adriano e Juliana foi literalmente movimentado. ''Estávamos de passagem por Montevidéo (capital do Uruguai). Chovia, e, talvez pela data, não encontramos nada aberto, nem vaga em hotéis'', conta o porteiro. A redenção pós-marasmo da data viria estrada adiante, com a chegada a Colônia do Sacramento. Ali, cada restaurante ou loja visitados vieram das reportagens lidas pelo rapaz. ''Como é um lugar de colonização portuguesa, não podíamos deixar de visitar'', justifica, com fotos da cidade cheia de paralelepípedos em mãos.
Ao chegarem a Buenos Aires, no dia seguinte, nada de visitar pontos turísticos tradicionais como o Obelisco, a Praça de Maio ou mesmo a Casa Rosada, sede da presidência argentina. ''Na primeira viagem já tínhamos feito esses roteiros, mas, de carro, tivemos a oportunidade de conhecer bairros, lojas e restaurantes que ficam de fora dos pacotes de agência'', completa Adriano. ''E o melhor de tudo é que, com o peso praticamente atrelado ao real, deu para se hospedar sem gastar muito (pagaram cerca de R$ 83 cada uma das quatro diárias de uma rede de hotéis) e, ao mesmo tempo, aproveitando bem a culinária argentina, saborosa e acessível''.
O restante da aventura a dois seria cansativa 15 horas de viagem até El Dorado, ainda na Argentina, e mais 100 quilometros até Foz do Iguaçu , mas recompensadora. ''De Foz, fomos ao Paraguai e compramos as lembranças para as famílias. No dia seguinte, dia 1º, chegamos em Londrina por volta das 16 horas''. Se mudaria alguma coisa nos planos? Sim, mas não o Natal sem ponto fixo. ''Hoje, eu resolveria passar a virada do ano nas Cataratas (do Iguaçu, em Foz), e não na lanchonete em que passamos'', ri.
Incrivelmente, nas palavras de Adriano, em nenhum momento o carro deu qualquer problema. Mesmo nos momentos mais tensos, como o da travessia da BR-101. ''Tem que ter muito sangue-frio, pois é pista dupla, esburacada e com motorista fazendo toda sorte de manobra arriscada. Perto de Laguna um deles atravessou a pista só para falar ao celular'', se espanta. Incrivelmente (novamente palavras dele) também, o início de ano foi ''bem melhor'' que os anteriores depois dos 4 mil quilômetros. ''Porque discutimos vários projetos nossos para 2005 durante essa viagem e até já concluímos alguns deles'', festeja, sem revelar ao certo qual a próxima reportagem de turismo que vai xerocar. ''Mas tem que ter planos, e isso eu tenho sempre'', recomenda.


