Um roteiro de alegria e tradição
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de abril de 2002
Jorge Henrique Cordeiro Especial para a Agência Estado 
Caruaru A etimologia da palavra que deu origem ao nome da cidade pernambucana de Caruaru diz tudo. Alguns estudiosos afirmam que a palavra vem do dialeto dos índios cariris e que caru quer dizer alimento, coisa boa e aru aru, repetição que significaria abundância. Para quem não conhece essa cidade do sertão nordestino, falar de abundância pode soar estranho, mas Caruaru é a fartura por excelência. Suas famosas feiras inté no Sul como cantou Luiz Gonzaga , sua música e seu rico artesanato, com trabalhos de artistas como Mestre Vitalino, não negam a fonte. E, sempre que pode, Caruaru celebra esta privilegiada condição.
Localizada a 140 quilômetros do Recife, a cidade tem vocação para a festa desde os tempos dos portugueses, que lá deixaram as sementes do São João, sempre regado a muito vinho quente, canjica e fogos de artifício. Um festejo farto que dura junho inteiro e atrai mais de um milhão de pessoas. Caruaru, a capital do São João.
Numa feira como manda o figurino, a variedade é a alma do negócio: tem de ter de tudo um pouco. Se você é do tipo que não perde aquela feirinha do bairro, nem que seja apenas para tomar caldo de cana e saborear um pastel, não vai resistir às feiras de Caruaru. Mais conhecida como capital mundial do forró (que Campina Grande não nos ouça), Caruaru nasceu e foi criada em uma feira.
Os colonos portugueses viviam por lá em busca do pau-brasil e da cana-de-açúcar. Hoje, são turistas os portugueses e também franceses, ingleses, alemães, além é claro de nós, os sulistas, que andam de barraca em barraca em busca das mil e uma ofertas. Como bem disse o pernambucano Luiz Gonzaga na música Feira de Caruaru: ...tem louça, tem ferro véio/Sorvete de raspa que faz jaú/Gelada, caldo-de-cana/Fruta de palma e mandacaru/Bonecos de Vitalino/Que são conhecidos inté no Sul/De tudo que há no mundo/Tem na feira de Caruaru.
São quatro as feiras mais importantes da cidade: a de artesanato, a livre (de legumes, frutas e afins), a de importados (com eletro-eletrônicos, parece até que você está no Paraguai!) e a Sulanca, de roupas e acessórios. Todas são montadas num imenso espaço, o Parque 18 de Maio, no centro da cidade, diariamente (menos domingo). Quem busca lembranças do Nordeste, a de artesanato é o paraíso. Dos famosos bonecos de barro a tapetes de palha de bananeira, de sandálias e bolsas de couro legítimo a camisetas com a estampa de Virgulino Ferreira (ele mesmo, Lampião), tem de tudo um pouco. A variedade e os baixos preços (um tapete de palha de bananeira de 2 x 2 m sai por R$ 5, chapéu de couro, R$ 10 e por aí vai) são um convite para a compra desvairada, que só é freada quando nos damos conta de que o espaço na bagagem ficou pequeno.
Para quem não conhece as guloseimas locais, uma passada na feira livre é fundamental. Farinha de mandioca, carne-de-sol, manteiga de garrafa e, é claro, a boa e velha cachaça Pitú são os carros-chefe dessa feira. Artistas populares invariavelmente se apresentam no local e os fãs de literatura de cordel vão se fartar com a variedade de temas.
Mas é às terças-feiras que ocorre a maior feira da cidade, a Sulanca, um inacreditável emaranhado de barracas que ocupa a maior praça da cidade. O nome vem do tecido elanca, 100% sintético e considerado o pai da lycra. Os feirantes traziam a elanca do Sul e vendiam em Caruaru como artigo de luxo, daí a Sulanca. O tecido ainda pode ser comprado entre as 15 mil barracas da feira, que oferecem panelas, roupas, cintos, chinelos, bonés, lençóis etc.
São mais de 40 mil visitantes por dia e, a cada semana, a Sulanca movimenta entre R$ 9 milhões e R$ 15 milhões. Na época do Natal, esse número sobe para cerca de R$ 40 milhões. Movimentação financeira para shopping nenhum pôr defeito.


