Um romancista no país dos óbvios
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 1997
Paulo Briguet Londrina 
Paulo Francis caricaturado por Demo, Fortuna, Jaguar e outros ilustradores do Pasquim
Morto Paulo Francis, chegou a hora de o Brasil descobrir a literatura que ele deixou. É um hediondo esporte nacional, esse de descobrir talentos só depois da morte física dos talentosos. O não reconhecimento dessa obra literária deixou o autor profundamente magoado, em vida. Mas, depois de provada a mortalidade daquele senhor, não resta outra saída. É preciso falar nos romances Cabeça de Papel e Cabeça de Negro. Mas pouca atenção foi dada a essa ficção marcada pelo ceticismo lancinante, que usa lentes psicanalíticas (fundo de garrafa?) sobre a farsa histórica. E a pouca atenção que houve não perdurou.
Os dois romances, escritos na década de 70, são inseparáveis, gêmeos. Compõem o panorama mais óbvio do período pós-64 em toda a literatura brasileira. E isso, acreditem, é um grande elogio. Francis sabia que retratar o Brasil com fidelidade é sobrepor o óbvio ao óbvio. Principalmente quando falamos de elites - a autoridade, a otoridade, a socialite, o empresário corrupto, o governante sem caráter, a elite mesquinha e assassina, o militar truculento, o acadêmico vazio, o jornalista interesseiro. Essa turma que reina há 500 anos não tem numerosos mistérios. Mas a forma (seja através da cordialidade, do tecnocratês, do raciocínio entre aspas ou do chavão) conspira para encobrir o que é ululante. A sobreposição do óbvio, é penoso dizer, exige contraditoriamente uma solução complexa, dolorosa, encarniçada, ainda mais porque insistimos em nosso bom-mocismo, nós que jamais vivemos um processo revolucionário verdadeiro e continental como este País. Tal solução é o dramático estilo de Francis nos seus livros.
As aventuras de Paulo Francis no País dos Óbvios são divididas não só em romances gêmeos, mas também em personagens gêmeos. São eles os amigos e jornalistas Paulo Hesse e Hugo Mann. Não é possível saber se Francis dividiu-os de propósito (por decisão estética) ou por ser incapaz de resumir tanta essência em apenas um homem. Mas essa é uma questão infrutífera. O fato é que os dois protagonistas dos Cabeças são gêmeos intelectuais e sociais: rapazes de classe média; na adolescência, garotos da fuzarca; abraçaram o marxismo; servem-se à vontade de literatura, bebida pesada e cocaína; possuem um tipo de individualismo marcado pelo distanciamento e pela angústia de pensar o mundo sempre, sem intervalos de descanso; são bem-sucedidos espadachins da palavra. É muito simples dizer que os personagens são autobiográficos; muito simples e estúpido. Como toda personagem literária que mereça tal nome, eles representam uma colagem orgânica, um disfarce de várias psicologias coesas. Muito de Mann e Hesse pode ser encontrado em um certo tipo de homem, em um grupo que repensou e ainda repensa o País, e que está hoje dilacerado em talentos individuais, os quais perderam - por culpa própria? - o sentido de organismo intelectual que se esboçava num certo período de nossa história recente. Pessoas como Ênio Silveira, Alberto Dines, Mário Pedrosa, Moacir Werneck de Castro, Ivan Lessa, Jaguar, Jânio de Freitas, Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, Cláudio Abramo, Mino Carta. Todos contemporâneos de Francis, que passaram pela sua vida e deram elementos, não para uma síntese autobiográfica, mas para a criação de dois personagens definidos com precisão histórica e interesse jornalístico. Atirando da corda-bamba entre literatura e jornalismo, Francis deixou suas marcas indeléveis.
Sem demagogiasFrancis contrabandeou o melhor de seu jornalismo para os Cabeças. O estilo cáustico, arrogante, direto e impiedoso, sem demagogias de espécie alguma, se molda segundo um arquivo de fatos históricos. O jornalista Francis empresta armas ao romancista Francis. Todo momento do presente narrativo recebe a fria análise das correspondências do passado. A ironia ganha força quando tem como apoio a verdade histórica - Lênin e Trotsky surgem para dizer à esquerda festiva, e aos revolucionários de Copacabana (uma personagem se diz de esquerda, como todo mundo na praia), o quanto esses brasileiros são ridículos. Hugo Mann, no começo de Cabeça de Negro, está escrevendo um artigo sobre Felix Dzerzhinski, o chefe da temida polícia da União Soviética, a Cheka. O revolucionário sensível e de temperamento dócil, que queria acabar com a fome das criancinhas russas, tornou-se um monstro capaz de mandar milhares de pessoas para a morte numa só noite. Enquanto Mann datilografa o artigo, toca a campainha. É Maria, mulher da sociedade e vizinha de Mann. Acaba de matar um ladrão que invadiu seu apartamento. Precisa de ajuda para abafar o caso. O horror bate à porta sem necessidade de grandes viagens à planície russa. Mais adiante, Mann flagra Maria e o próprio filho, um daqueles garotos de Copacabana, em pleno incesto.
Hesse e Mann (este o narrador dos livros) são como buracos negros psicólogicos: sugam, pela força gravitacional, tudo que se passa em sua volta. Até a luz. Pesam cada vez mais a obviedade das coisas. E o fazem de acordo com o período histórico pós-64, que viveram de maneiras diferentes. A dupla, logo em seguida à noite de 1º de abril daquele ano, é ainda identificada com a esquerda radical, à qual efetivamente pertence. Mann é perseguido, desempregado, afoga-se no choro da derrota. Em 1965, Hesse, para espanto e consternação dos derrotados, aparece ao lado da ditadura, usando em seus artigos pró-Castelo Branco a mesma argúcia marxista que relevara na esquerda. Casado com Sílvia Maria, filha de um destacado defensor do regime, Hesse ganha a chefia de um jornal importante no Rio.
ReproduçãoPaulo Francis contrabandeou o melhor do jornalismo para os seus romances através da linguagem, sempre impiedosa
Mesmo separados pela política, Hesse e Mann não deixam de ser amigos. Mann inclusive ganha a salvadora função de crítico de cinema do jornal de Hesse. Um poderia dizer do outro o que Mino Carta disse após a morte de Cláudio Abramo: Ele acabou sendo uma das raríssimas pessoas pela qual eu sentia uma amizade definitiva e inabalável. Com ele, eu não me desentenderia em hipótese alguma, estaria ao seu lado em qualquer circunstância. Hesse e Mann têm uma amizade cujo alimento é o saber (marcado pela fúria marxista em busca do Homem Total). No grande diálogo entre os dois, que atravessa uma noite, vários gramas de cocaína, litros de bourbon e um punhado das páginas de Cabeça de Papel, tudo é posto a limpo: o Brasil no panorama mundial; o drama-farsa dos golpes políticos e dominações; a canastrice dos nossos atores sociais; as formas poéticas e filosóficas da decadência capitalista, esteja ela ou não vivendo o fôlego que precede os estertores; a psiquê dos oprimidos, dos opressores e da grande barata tonta, a classe média, termômetro revolucionário que no Brasil poucas vezes tem ultrapassado os 36,5 graus centígrados.
Aliás, classe média, como anatomia, é destino. Dr. Freud concordava.
Mas - claro - não adianta psicanalisar os livros de Francis, nem o próprio Francis. Bobagem percorrer a infância com criação germânica, a educação em colégio de padres e os hábitos de família remediada. Seria psicanálise de amador, uma das piores idiotices na apreciação de literatura.
LinearidadeOs livros de Francis têm ritmo. Não chegam a ser uma sinfonia literária, como Contraponto, de Aldous Huxley, herói de Francis na juventude. Mas também não parecem caóticos como uma partitura de John Cage, detestado pelo autor. Os Cabeças têm som e linearidade próprias. O tempo passa de maneira convincente nos dois romances. As páginas finais de Cabeça de Papel são a conclusão de uma sonata neurótica: o destino de Hesse, no limite entre os dois livros, vai trazer à tona, para Hugo Mann, uma verdade surpreendente. O narrador descobrirá que Hesse não era tão traidor assim. (A esquerda brasileira, depois da morte de Francis, e falecidos também os seus exageros e provocações dominicais, poderia fazer semelhante reflexão, em benefício próprio.)
A atmosfera dos romances de Francis é cinza. No País dos Óbvios, não há respiradouro. Não há oásis. Não há tranquilidades, mesmo esparsas. O leitor atravessa os parágrafos de Cabeça de Papel e Cabeça de Negro sem oxigênio algum; mesmo os pontos finais são falsos, meros intervalos entre uma facada verbal e outra. Quem as recebe corre apavorado pelo mundo de vírgulas, apostos, relatos em código, expressões para iniciados, jokes, diálogos pastosos, fantasmas da reminiscência, ressacas gramaticais diversas.
Tudo que conseguiremos numa busca meticulosa, numa operação pente-fino atrás de esperança, alento ou chance de fuga, será um sorriso demoníaco e enevoado. É o humor de Francis que aparece na sua literatura, mas não a redime das trevas. Após exaustiva procura, a arcada dentária se exibirá não porque a ocasião é alegre, mas porque muita droga espiritual enche o cérebro e estica os neurônios. Os livros de Paulo Francis nos oferecem um sorriso com os dentes da desgraça. E sustentam que é a nossa desgraça. A brasileira.
O poder de observação de Francis (apesar das lentes de fundo de garrafa) é grande. Ele pode, em algum lugar do romance, tornar-se obscuro e esquizofrênico, mas as nuances de clareza estão lá, aparecem sempre. Age como um pintor modernista que conhece e domina os padrões clássicos, as concepções lineares de sua arte: por mais que as linhas e cores sejam distorcidas, a realidade sempre aparece em algum lugar.
Sem parâmetrosNuma prolixidade necessária, numa teia proustiana, os romances de Francis põem em relevo personagens que mantêm a pose do domínio e da superficialidade burgueses, mas na verdade estão desesperados, bêbados, drogados, pulando de festa em festa, ou de gabinete em gabinete, ou de jornal em jornal, ou de amante em amante, sem parâmetro algum que não seja o caos. Figuras, como um crítico acadêmico disse inesperadamente bem, à beira do suicídio. Há a dona de casa que trai o marido e diz que a mancha roxa nas costas se deve à ginástica; o empresário em desespero porque o filho é homossexual; o gordo tzar da economia que frequenta garotos de luxo; a militante esquerdista que descobre no figurão da sociedade o seu ex-torturador; a personagem Vanda Vinde A Mim As Criancinhas, devoradora de homens, com nome auto-explicativo. É bem verdade que, em minoria, há personagens secundários que preservam a dignidade, escapam da embriaguez elitista. Mas estes quase sempre sofrem derrotas, como o competente e raivoso secretário de redação de um grande jornal, que acaba demitido por intrigas internas e pela habitual acusação de ser comunista..
Paulo Hesse, metros acima da turba desesperada, por sua dolorosa lucidez, não foge do desespero, porque este é o ar que todos respiram nos livros de Francis. É um personagem trágico como uma ópera de Wagner, compositor que Francis tanto admirava. Podemos colocar o prelúdio de Tristão e Isolda na vitrola e entender, na leitura dos Cabeças, a trajetória deste marxista, traidor, jornalista, bebedor, drogado, pervertido, talentoso, contraditório, sarcástico e arrogante espécime do Brasil pensante. Hesse tem uma essência judaico-cristã por trás da dialética face do Deus Janos, de seu calculado disfarce de duas (só?) caras perante o mundo externo. E ele expia sua culpa pecaminosa da maneira mais patológica e arraigada nas profundezas do ser - a depressão mental. No poço da melancolia, Hesse encontra Hesse. E a única mão que se estende, ainda que trêmula, é a do amigo Hugo Mann.
DesecantoPaulo Francis começou em colégio católico; repudiou a fé. Foi trotskista; morreu a convicção. Aguentou mais alguns anos na esquerda; virou conservador. Na direita, defendeu o humanismo por um tempo; depois também acabou essa crença. Teve tuberculose, suspeita de câncer, depressão e morreu de enfarte aos 68 anos. Não bebia desde 1980. Sofria com todos os defeitos visuais possíveis, daí as lentes fundo de garrafa. O comportamento pessoal, a despeito de todas as angústias, era o de uma pessoa divertida e afável, garantem os amigos. Mas a obra literária é, não por acaso, uma história do desencanto. O pessimismo e a angústia intelectual marcaram a ficção de Francis. Não temos porque imitá-lo em suas renúncias, em seu niilismo final, em suas convicções políticas. Mas seria bom, para os habitantes do País dos Óbvios, levar em conta as palavras, pensamentos, atos e omissões de um cidadão na verdade chamado Franz Paulo da Matta Trannin Heilborn. Ao escrever estas linhas, dou uma olhada para o alto. No retrato da parede, Leon Trotsky me encara impassível, severo, por trás dos óculos. Será que ele também quer falar um minuto? Quatrolho!


