Tem gente de bem, refém de serpentes, que mente entre tremer de dentes. Temer serpente nem sempre é excelente. Tem gente que vende fé efervescente e tem gente que mente sempre e presente. Entender três vezes treze sem depender de mestres e chefes, sem depender de vermes e precedentes, é ver gente beber verbetes sem temer perder dentes.

O parágrafo que você acabou de ler acima pode parecer um pouco estranho, mas trata-se de um exercício literário chamado de monovocalismo. Um recurso que consiste em utilizar uma única vogal para criar um texto. No caso apenas a vogal “e” foi utilizada, as outras quatro vogais ficaram de fora.

Quem levou essa experiência ao extremo foi o escritor francês Georges Perec, falecido em 1982. Ele escreveu um romance inteiro sem utilizar as vogais “a”, “i”, “o” e “u”. Sua missão era utilizar apenas a vogal “e”. O resultado aparece no livro “Les Revenendes”, publicado originalmente em 1972.

O monovocalismo está vinculado a outro recurso literário chamado lipograma. A regra do jogo é simples: suprimir uma ou mais letras do alfabeto do texto. Os lipogramas mais complexos em línguas latinas suprimem alguma das cinco vogais. Georges Perec foi um especialista em lipogramas.

A editora Autêntica publicou recentemente a primeira aventura de traduzir “Les Revenentes” para o português. A tarefa desafiadora ficou nas mãos de Zéfere – pseudônimo do mineiro José Roberto Andrade Féres, atualmente professor da Universidade Federal da Paraíba. Em sua tarefa precisou alterar algumas palavras sem perder a fonética. Vale citar dois exemplos: a palavra “que” foi convertida em “qe”, e a palavra “balangandãs” foi transformada em “berenguendéns”.

A edição brasileira recebeu o título de “Q Regressem”. Narra as aventuras de quadrilhas de ladrões franceses que invadem a Inglaterra com a missão de roubar uma valiosa coleção de jóias. As humoradas peripécias dos bandos são permeadas por façanhas eróticas que culminam em uma alucinada orgia. Mas o enredo não é o foco principal de Perec, seu grande interesse reside na linguagem.

Nascido em 1936, Georges Perec integrou o grupo literário OuLiPo (Oficina de Literatura Potencial) criado em 1960, em Paris, por Raymond Queneau, François Le Lionnais e Italo Calvino. O grupo defendia a ideia de que algumas regras formais da literatura poderiam ser um estimulo à criação literária. A obra mais emblemática dessa prática é “Exercícios de Estilo”, de 1949, onde Raymond Queneau narra a mesma história de 99 formas diferentes.

A obra de Georges Perec está repleta de desafios que utilizam jogos verbais e jogos de linguagem. Durante muitos anos trabalhou como criador de palavras cruzadas para jornais e revistas. Para se ter uma ideia, o maior palíndromo da língua francesa é de sua autoria, é composto por 1.247 palavras. Palíndromo é uma frase, ou um texto, que pode ser lido da maneira usual (da esquerda para a direita) ou de trás para frente (da direita para a esquerda) preservando o mesmo sentido.

Perec também escreveu, utilizando a técnica do lipograma, um romance de quase 300 páginas sem utilizar a vogal “e”. Lançado originalmente em 1969, “La Disparition” ganhou sua primeira edição brasileira em 2015 publicado pela editora Autêntica. A versão para o português, que recebeu o título de “O Sumiço”, também ficou a cargo de Zéfere que desenvolveu a tradução como tese de doutorado. Em 2016 o livro ganhou o prêmio Jabuti e prêmio Biblioteca Nacional, ambos na categoria tradução.

“O Sumiço” traz uma mirabolante história repleta de reviravoltas entre o trágico e o cômico. Tudo começa quando um sujeito chamado Antoin Vagol tem a sensação que alguma coisa sumiu, desapareceu. Cutucando aqui, investigando ali, ele descobre que a coisa que desapareceu é justamente a letra “e”. Mas quando está próximo da descoberta, ele também misteriosamente desaparece. E assim, todos as personagens que estão próximos de descobrir o paradeiro da letra “e”, simplesmente morrem ou desaparecem.

Georges Perec é um escritor excêntrico e peculiar. Sua literatura está baseada em estruturas instigantes e experimentais, em jogos de linguagem e desafios formais. Entre seus livros publicados no Brasil estão: “A Vida Modo de Usar” (1991), “A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir um Aumento” (2010), “As Coisas” (2012) e “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense” (2015).

Serviço:

“Q Regressem”

Autor – Georges Perec

Editora – Autêntica

Tradução e posfácio – Zéfere

Páginas – 144

Quanto – R$ 69,80 (papel) e R$ 48 (e-book)

“O Sumiço”

Autor – Georges Perec

Editora – Autêntica

Tradução e posfácio – Zéfere

Páginas – 256

Quanto – R$ 79,80 (papel) e R$ 55 (e-book)