Um romance à antiga
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de setembro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Começou em fevereiro, com um Festival de Berlim sem muita inspiração. O Oscar veio logo a seguir e foi o que se viu: os independentes - ou nem tanto - arrombaram a festa na casa da indústria poderosa e acabaram levando uma cesta de estatuetas, a maioria distribuída burocrática e compulsoriamente. Convenhamos: a exceção integral foi Fargo. Em maio, a vez de Cannes festejar 50 anos com uma das menos inspiradas seleções de sua história. E no último fim de semana, a julgar por relatos confiáveis, Veneza fechou melancolicamente esta espécie de grand slam cinematográfico. O Paciente Inglês, que invade agora as locadoras, coincidentemente poderia bem ser a síntese deste ano árido de imagens.
Fim da Segunda Guerra Mundial. Um avião é abatido pelos alemães em algum lugar do Saara. Recolhido por nômades, o piloto é confiado ao exército britânico que avança rumo ao norte da Itália e à vitória final. Este homem, severamente calcinado, está sem identidade e aparentemente amnésico. Além disso, há uma chance em mil de que sobreviva. É a este fantasma em compasso de espera que uma enfermeira canadense, Hana (Juliete Binoche), vai se apegar, depois de perder em combate o namorado e presenciar a morte da melhor amiga na explosão de uma mina.
Refugiados nos escombros de um monastério toscano, este casal de sem esperanças se instala para a mais improvável convivência. Uma terceira e misteriosa pessoa, e depois um quarto personagem também vão influir decisivamente na narrativa.
Adaptado de um romance admirável - e a rigor sem condições de ser filmado - do escritor canadense Michael Ondaatje, O Paciente Inglês está construído sobre o fundamento clássico do flashback, que permite colocar frente a frente duas histórias de amor que correm paralelas.
A primeira se desenha sob o sol do Saara e é regida pela vida; a segunda se abriga à sombra de um monastério abandonado, na antecâmara da morte. Fundindo-se lentamente, essas duas variantes tecem um quebra-cabeças que trabalha fragmentariamente com o passado do paciente inglês.
Golpes de memória vão aos poucos revelando uma trama romanesca de onde surgem o intrincado conde Almasy (Ralph Fiennes) e a loura, bela e casada Katherine (Kristin Scott-Thomas), bafejada pela fortuna e educação refinada, afinal a mulher da vida de Almasy.
Amor e clichês - Diante da amplitude deste filme caudaloso, pode-se até pensar por um instante nas grandes sagas orquestradas por David Lean - Jivago, Lawrence da Arábia, Filha de Ryan, Passagem para a Índia. Por um instante, não mais: o deserto existencial, quase um alter ego do tenente Lawrence na obra-prima imortal de 62, não tem aqui qualquer resquício de co-participação influente na construção do perfil psicológico dos personagens, especialmente o Almasy de Fiennes.
Ao roteirista e diretor inglês Anthony Minghella faltou um mais inspirado sopro de invenção ao trabalhar com os perigosos clichês de um gênero, ou seja, uma guerra, um deserto, uma cidade exótica, uma paixão arrebatadora e impossível, uma traição, belas atrizes e belos atores, uma música romântica. Na ânsia de privilegiar a intensidade dramática da narrativa, ele não hesita em forçar demasiadamente a mão em alguns desses elementos.
Diante disso, o que não se pode exigir de O Paciente Inglês são as delicadezas da sobriedade, embora haja um momento de pura magia cinematográfica, na descoberta encantatória dos afrescos do monastério. Para uma quase estranha que chegou há pouco ao ninho das major de Hollywood, a companhia Miramax até que se esmerou na chamada produção independente, permitindo ao veterano Saul Zaents (Um Estranho no Ninho, Brincando nos Campos do Senhor) um quase nível de excelência - há alguns problemas de acabamento facilmente detectados numa (re) visão doméstica.
Dois pontos absolutamente inatacáveis em O Paciente Inglês: seu excepcional quarteto central de atores - Willem Dafoe também contribui, ainda que às vezes relegado a um canto da tela. E sua imortal vocação autenticamente popular em direção ao melodrama, resultando em algo assim como ...E o deserto levou.


