Um rio de reverências
O Rio continua lindo. Mas a exuberante paisagem não explica a redescoberta da capital carioca, eleita subitamente personagem principal e tema de vários livros e filmes nesta temporada. Do cineasta alemão Wim Wenders aos diretores Bruno Barreto e Carla Camurati, do jornalista Ruy Castro à cronista Scarlet Moon, da ensaísta Beatriz Jaguaribe ao poeta Chacal - todos, e mais uma penca de nomes, escolheram a cidade maravilhosa para protagonizar ou ambientar suas novas produções.
Wim Wenders: vai ficar seis meses no Rio, durante o segundo semestre, para filmar o seu Pão de AçúcarCuriosamente, os motivos escapam de qualquer data comemorativa ou oba-obas de ocasião. Tachar o fenômeno de bairrismo festivo tampouco teria sentido. Soaria tacanho, quando não mera birra de paulistano querendo encrenca. Mesmo porque não há nada menos carioca do que um alemão cool como Wim Wenders, que desembarca no próximo semestre na orla para rodar seu próximo longa, já batizado Pão de Açucar.
Que mistérios afinal tem o Rio que, mesmo distante de efemérides, vira foco de tanta badalação? No caso do diretor de cinema Bruno Barreto, que voltou ao país depois de morar quase dez anos nos Estados Unidos, foi o reencontro com os encantos mil da cidade que o inspirou a rodar Senhorita Simpson.
O filme, que ele já definiu como uma comédia romântica, exaltará as belezas cariocas transportando o público para um Rio já distante que sequer sonhava com sequestros, balas perdidas e gangues de jiu-jitsu. O elenco traz Antônio Fagundes e Amy Irving (mulher do diretor) protagonizando um romance cercados de histórias amorosas paralalelas vividas por Fernanda Torres, Alexandre Borges, Débora Bloch e Pedro Cardoso.
O projeto é uma adaptação do romance homônimo do escritor Sérgio SantAna. Foi encampado originalmente por Arnaldo Jabor, que acabou desistindo da idéia. A trilha sonora foi toda garimpada em clássicos da bossa nova. A bossa, aliás, poderá emprestar o nome ao filme no mercado internacional. Também saudosa de um Rio mais cordial e desaparecido, a atriz e diretora Carla Camurati engatilha seu terceiro longa Copacabana.
Carla Camurati: crônica de costumes homenageia antigos moradores de CopacabanaComo anuncia o título, o filme homenageia o bairro mais famoso do País, que na década de 50 era chamado de a princesinha do mar. Participam do elenco os atores Marco Nanini, Paulo José e Marieta Severo. Camurati define a obra como uma crônica de costumes, na qual deseja revelar o lado lúdico e divertido do bairro sem deixar de trazer à luz a contraparte de drama e dor.
O enfoque será dado aos antigos moradores, atropelados pela decadência que varreu dali os traços de lirismo, tradição e boemia. Outro filme ambientado no Rio, em fase de pré-produção, é Quase Dois Irmãos. O roteiro está sendo costurado a quatro mãos pela diretora Lúcia Murat e o escritor Paulo Lins, autor do consagrado romance Cidade de Deus.
Longe de glamourizar o tema, Murat pretende mostrar três gerações de cariocas por meio de duas famílias cujos destinos se cruzam nas décadas de 50, 70 e 90. O fundo da trama discute as relações entre a classe média e a marginalidade, simbolizadas em personagens como sambistas, jornalistas, guerrilheiros políticos e integrantes do Comando Vermelho.
Também elegendo o Rio de Janeiro como assunto, uma série de livros chegou recentemente às prateleiras com abordagens diversas. A pesquisadora Beatriz Jaguaribe reuniu uma coleção de cinco ensaios sobre arquitetura e literatura em Fins de Século - Cidade e Cultura no Rio de Janeiro (Rocco). Os jornalistas Zuenir Ventura e Cássio Loredano mergulharam em arquivos empoeirados para sair de lá com o luxuoso volume O Rio de J.Carlos (Lacerda Editores), uma criteriosa compilação de cartuns, charges e caricaturas do mais influente artista gráfico da imprensa brasileira na primeira metade deste século.
A dupla de sociólogos Alba Zaluar e Marcos Alvito organizou o conjunto de ensaios Um Século de Favela (Fundação Getúlio Vargas), na qual sobressai a noção de que a voz do morro superou condições subumanas para despontar como a grande matriz da música popular brasileira.
A editora Relume Dumará dá prosseguimento às suas coleções Perfis do Rio e Cantos do Rio, idealizadas pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e inauguradas há três anos. Nelas, os autores homenageiam a Capital carioca usando personagens e lugares que tenham total identificação com a cidade.
Assim, o escritor João Ubaldo Ribeiro ganhou a condição de carioca pelo tempo em que vive no Rio e por divulgar o nome da cidade nas crônicas publicadas na imprensa. Ele é o contemplado da vez na série Perfis, que já rendeu textos sobre Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, Janete Clair etc. A edição recém-lançada traz a autoria de Wilson Coutinho.
Na série Cantos do Rio, por sua vez, o estádio do Maracanã recebe relato do jornalista Oldemário Touguinhó e o célebre Posto 9 ganha narrativa do poeta Chacal. O Posto 9 é o personagem principal também da coletânea de crônicas memorialistas Areias Escaldantes - Inventário de uma Praia (Rocco), de autoria de Scarlet Moon de Chevalier, que dá um depoimento sentimental sobre o trecho de areia mais agitado do Rio.
Pelas páginas, tanto de Chacal como de Scarlet, circulam figuras como Caetano Veloso, Regina Casé, Patrícia Travassos e Evandro Mesquita. Aparecem também eventos impagáveis como o buxixo em torno da tanga de crochê de Fernando Gabeira, o primeiro topless, o verão da lata e os apitaços - todos eles acontecimentos locais de grande repercussão nacional.
Scarlet incluiu um glossário de gírias ao final do livro, ao passo que Chacal dispôs depoimentos de vários frequentadores. Também explorando cada metro quadrado do pedaço, o jornalista Ruy Castro fez do Posto 9 um dos pontos de parada de sua nova aventura literária, já intitulada Ipanema e que deve chegar brevemente ao mercado pela Cia das Letras.
As histórias do Rio são intermináveis.Arquivo FolhaA Editora Relume Dumará está lançando mais três títulos de suas coleções dedicadas ao Rio de JaneiroNelson Sato





