Um rio cheio de memórias
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de julho de 2002
Mauro Dias<br> Agência Estado 
Eventualmente, as lavadeiras que cantavam loas enquanto lavavam roupas nas águas do Rio Francisco substituíram o canto de trabalho por outro - canções religiosas levadas até lá pelas igrejas (as evangélicas, principalmente) que vão substituindo a cultura popular, secular, até bem pouco tempo mantida quase intocada.
Mas a lembrança daqueles cantares ancestrais não se perdeu. Não de todo.
E, enquanto é possível, é preciso registrá-la. A lembrança dos cantos e também das festas, das danças, dos ritos religiosos, das vestes, da arquitetura, dos hábitos alimentares, das crenças. O cineasta Marcus Vinicius Cézar registra, em tom ficcional, um pouco disso tudo, no filme ''São Francisco, Um Rio Cheio de Histórias''.
Trata-se de uma obra de ficção, mas baseada em pesquisas que Cézar começou a realizar há cinco anos. Sua primeira intenção era realizar um filme musical, registrando os cantos tradicionais. ''Mas descobri que havia mais do que música'', conta. ''Então, pensei num documentário. No entanto, muito do que foi escrito sobre a população ribeirinha do São Francisco, em cinco séculos de história do Brasil, está perdido - iconografia, literatura e assim por diante. Então, criei, num primeiro momento, uma ficção.''
''São Francisco, Um Rio Cheio de Histórias'' está pronto e deve ser lançado até o ano que vem. Ainda no início do ano que vem, Marcus Vinicius Cézar começa a realizar a segunda parte do projeto. Aí, sim, um documentário, que já tem título: ''São Francisco - O Som de um Rio'' pretende captar as diversas expressões musicais da bacia do São Francisco. O cineasta já tem 60 horas de gravações, feitas durante o trabalho de pesquisa para a obra de ficção.
A intenção é exibir o documentário (que pode ser desdobrado em dois programas) pelo canal ''Multishow'', da Globosat, mas ainda em salas de cinema, para alunos das redes escolares pública e particular, usando a rede do projeto Escola no Cinema, e distribuir pelo menos 500 cópias para as bibliotecas públicas dos cinco Estados banhados pelo São Francisco - Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas.
O material recolhido pode, em outra instância, virar disco. ''O processo de produção fonográfica é diferente do de cinema, mas o registro será feito com o cuidado necessário para que possa ser transformado em CD'', conta Cézar.
''Acho que nós, do Rio e de São Paulo, estamos muito preocupados com Nova York, querendo parecer com Nova York'', diz. ''Abraçar esse projeto me dá a perspectiva de pertencer a uma nação: permite-me entender por que nós, brasileiros, somos como somos, acreditamos em determinadas coisas, temos especiais cacoetes e hábitos'' - ele está tomado pela idéia.
''O olhar de fora é viciado: pelo menos no Sul, acredita-se que o São Francisco está seco, não é mais navegável, que está acabado, que é um arroio'', diz. ''Quando mostrei a conhecidos as primeiras imagens aéreas, as pessoas ficaram surpresas - aquilo era o São Francisco, aquela quantidade de água, largo daquela forma?''
O cineasta acredita que o potencial turístico do vale é imenso e deve ser descoberto em breve. A cidade de Penedo, em Alagoas, que lhe serviu de base durante a filmagem de ''São Francisco, Um Rio Cheio de Histórias'', já está sendo sondada pela indústria hoteleira internacional. ''É um sítio arqueológico, uma mini-Ouro Preto, tombado pela Unesco.'' Ele sabe que o turismo é predatório por natureza: daí, a urgência de registrar os reisados, congados, caboclinhos, a cavalhada, a marujada, as loas das lavadeiras, as canções dos remeiros, de antes do barcos a vapor
Vale lembrar alguns registros das músicas e festas do São Francisco, lançados comercialmente, como o CD ''Velho Chico - Uma Viagem Musical'', de Elson Fernandes (0--61-9975-2488) e a coleção de seis discos da série Bahia, Singular e Plural, da Bahia (www.irdeb.ba.gov.br).


