Poucos nomes do pop nacional foram tão significativos nos anos 90 quanto Chico Science, organizador da Nação Zumbi e maior pensador do movimento conhecido como ‘‘mangue beat’’. Com apenas dois discos e furando o bloqueio centralizador da música nacional, ele saiu de Pernambuco mostrando que os ritmos brasileiros sempre se misturaram bem com qualquer coisa, principalmente com o rock.
É claro que não há novidade nenhuma nisso e Os Mutantes já haviam experimentado essa união há quase 30 anos. Mas a indústria da música é mais dura de cabeça do que a garra dos caranguejos do mangue, e impôs uma separação idiota e odiosa entre rock e MPB nos anos 80.
Já nos 90, Pernambuco surgiu com um movimento de novas bandas de rock que passaram a juntar ritmos como maracatu, forró, samba, baião às suas guitarras distorcidas, jogadas eletrônicas e letras criativas. Na frente deles todos destacava-se um cara que usava uns óculos enormes, era bom de papo e convencia a mídia a prestar mais atenção a este movimento que eles chamavam de ‘‘mangue beat’’. Chico Science e sua Nação Zumbi foi o primeiro grupo deste movimento a chegar a uma grande gravadora lançando seu primeiro disco em 1995, pela Sony. Chamava-se ‘‘Da Lama ao Caos’’.
Ao vivo, muito melhorO som tomou conta do Brasil e a banda excursionou por todo o território nacional, levando consigo, para abrir os espetáculos, companheiros do Nordeste que depois também viriam a se destacar no cenário nacional, como as bandas Mundo Livre S/A e Mestre Ambrósio.
Se o som gravado já era bom, ao vivo era muito melhor. A banda despejava muita energia no palco. Utilizava fantasias e coreografias próprias do folclore nordestino junto ao peso de baixo, guitarra e bateria (que não era pouco). Não tinha quem não caísse na dança. Tudo comandado e pensado por Chico Science.
No ano passado, também pela Sony, lançou seu segundo disco, ‘‘Afrociberdelia’’, que imediatamente foi ao sucesso com a faixa ‘‘Maracatu Atômico’’, uma regravação da música de Jorge Mautner filtrada pelo estilo ‘‘mangue beat’’. As FMs e a MTV tocaram à exaustão essa música. Chico Science morre, trágica coincidência, às vésperas da maior festa popular do Nordeste. Mas, graças a ele, todos os roqueiros do Brasil estão liberados para experimentar os ritmos brasileiros e cair na batucada sem aquela frescura de separação em guetos, que existiu nos anos 80.

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