Um retrato do mundo, sem retoques
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de maio de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha2 
Ao longo de doze dias, dezenas de filmes reunidos na seleção oficial do 61º Festival de Cannes causaram apreensão, talvez medo e em algum momento certo desespero. Não é segredo e nem novidade que festivais do porte de Cannes, Veneza e Berlim são a ocasião de atualizar as contradições cada vez mais vivas que atormentam quem utiliza o cinema como instrumento de aferição dos males do planeta. Este ano, a ampla abertura para o mundo contemporâneo e urgente na grande maioria dos filmes presentes, acabou fazendo a alegria do júri presidido por Sean Penn, que trabalhou em harmonia devidamente consubstanciada nos vereditos equilibrados, sem qualquer evidência de constrangimentos ou dissensões.
Se até a véspera do encerramento as coisas já vinham bem encaminhadas, por conta de títulos inquietantes, o fecho da mostra ofereceu ainda uma providencial ambivalência. A projeção praticamente seguida do triunfo de Entre les Murs, o filme de Laurent Cantet, cristalizou a certeza de que este foi um certame revigorado pela força do cinema como expressão social, política, humana. E foi a prova de que os problemas e as angústias podem não ter solução a curto prazo, mas estão a apresentar uma razoável gama de alternativas para fertilizar o debate.
Os realizadores que contribuíram para isto o fizeram de maneiras diversas, com escolhas técnicas (imagens digitais ou analógicas) ou narrativas múltiplas (utilização de elementos documentais, animação ou refúgio na ficção clássica). Em Cannes, o cinema mostrou, entre outras coisas, uma de suas singularidades, que é de permanecer bem vivo tanto em sua formulação mais clássica, como em A Troca, de Clint Eastwood, como no âmbito de suas pesquisas mais modernas 24 City, de Jia ZangKe.
Nesta semana que passou, a imprensa francesa abriu generosos espaços para iniciar uma ampla discussão em torno dos problemas de educação levantados pelo filme de Cantet. E deve ir longe, porque a questão da diversidade racial e cultural vai se acirrar com a descoberta de que dois dos adolescentes que atuaram como atores nesta laureada ficção impregnada visceralmente pelo real.
Esta foi com certeza a pedra de toque deste festival e que deveria sinalizar na mesma direção para todos os outros: a vontade de criar obras de ficção utilizando materiais capturados da realidade. E não foi apenas o filme da Palma a decifrar esta equação. Fernando Meirelles, na abertura com Tratado Sobre a Cegueira, mostra as privações intensas inflingidas a cegos reclusos num hospital. Walter Salles demonstra que a pobreza gruda como carrapato em quem a quer abandonar.
Clint Eastwood devassa a hipocrisia machista que humilhou e retardou por muito tempo a cidadania/soberania das mulheres. Soderbergh busca o entendimento para o mito do Che, com o foco tanto na direção do real como da utopia. Os irmãos belgas Dardenne tocam fundo na ferida sempre aberta dos imigrantes ilegais em busca não apenas da legalidade, mas da dignidade. Mateo Garrone e Paolo Sorrentino, a dupla italiana respectivamente com Gomorra e Il Divo, retratos vivos e dilacerantes de um país mergulhado dia e noite no crime organizado e corporativo e na corrupção política. São filmes que encontraram a boa acolhida de quem estava em Cannes, e que agora começam a buscar mundo afora o espaço e o respeito que merecem.


