Um retrato de Bogart
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 1997
Agência Folha 
ReproduçãoHumphrey Bogart: o mito do cinema deixou lembranças amargas para o filho StephenHá 40 anos, no dia 14 de janeiro, morria o ator Humphrey De Forest Bogart ou Bogey, a maneira que seus amigos o chamavam e o apelido que seu filho, Stephen, se acostumou a ouvir.
Bogart - Em Busca de Meu Pai, lançado agora no Brasil pela editora Record, mostra o quanto Stephen - após um câncer no esôfago ter liquidado o astro de Casablanca e O Falcão Maltês - se recusou a ouvir,
mencionar ou mesmo reconhecer qualquer proximidade com Bogart. Biografia, análise freudiana involuntária, Em Busca do Tempo Perdido de uma figura paterna, Bogart conta, ao longo de 280 páginas, o reencontro de Stephen com sua herança.
Quando Bogey morreu, seu filho tinha apenas oito anos. E, além da dor natural do fato, sofreu ainda mais uma condenação: foi roubado de sua própria personalidade, sendo sentenciado - sempre - a ser um pouco do que restou do outro, da estrela hollywoodiana e modelo comportamental do macho norte-americano.
Assim como Rudolph Valentino, e outros tantos, seu mito cresceu com o tempo. Bogart ainda não era Bogart quando morreu, mas um ator querido, admirável e distante de toda a mitologia.
Biografia é
uma análise
freudiana
involuntária
AnonimatoStephen e o fanatismo sobre seu pai crescem juntos e em proporções distintas. O ator se torna grandioso. O filho, um acaso curioso. Durante anos ele finge que é um anônimo, mergulha nas drogas e tenta esquecer quem é, recusando até os velhos e famosos filmes de seu pai exibidos na madrugada. Com a ajuda de sua mãe, a atriz Lauren Bacall, e de sua mulher, Stephen terminou por vencer todos os seus traumas e partiu para a ação contrária. Agora, sua tarefa era perseguir Humphrey Bogart. Vasculha tudo então sobre o homem que nasceu de uma família abastada em Nova York em 1899 (pai cirurgião e mãe pintora) para assumir, sempre que a oportunidade lhe era oferecida, a imagem do rústico cidadão das ruas.
Stephen conversa com todas as pessoas vivas que conheceram seu pai e aproveita do tipo de documentação escrita e palavra mencionada ou meramente lembrada sobre Bogey e seus atos, filmes e atração irresistível por álcool, tabaco e veleiros. É claro que para a história de uma vida, contada dessa maneira, sob a invencível pressão emocional, não se espera exatidão. O maior mistério sobre o seu pai permanece. Como, após 28 filmes sendo discretamente notado, Bogart se transformou, na frase tão americana e cinematográfica, maior que a vida. Não há, ao menos no que se refere aos fatos, um novo dado esclarecedor ou escandaloso. Mas apenas, na visita que o autor faz à antiga casa de seus pais - e que serve de fio condutor para a narrativa -, as observações, insights e flashs da memória de alguém que, feliz ou infelizmente, esteve mais perto dele do que o resto de nós.


