Um retrato da infância
Livro reúne três novelas do escritor William Styron

ReproduçãoAlguns pesquisadores costumam afirmar que a infância de um escritor sempre estará presente em sua obra. As memórias deste período nunca se cansam de correr pelas artérias do criador de histórias. Mesmo com as camadas de gordura e sujeira, a infância estará contida na velhice como oxigênio contido na água. Neste sentido, a infância pode ser descrita como um riacho onde a literatura aprecia pescar nas tardes de verão.
As águas deste riacho inundam as páginas de ‘‘Um Manhã em Tidewater’’ do escritor norte-americano William Styron. Lançado pela Editora Rocco, o livro traz três novelas que contam a história, em três épocas diferentes, de um mesmo personagem, Paul Whitehurst, ambientadas na pequena cidade de Tidewater, Virgínia - cidade que se tornou grande fabricante de produtos bélicos para a Segunda Guerra.
Escritas originalmente para a revista ‘‘Esquire’’ durante a década de 80, as histórias possuem alto teor autobiográfico. Nas palavras de Styron, ‘‘as novelas compreendem uma reconstrução imaginativa de eventos reais e estão ligadas por uma cadeia de lembranças’’. Elas revelam experiências vividas pelo autor aos dez, treze e vinte anos de idade. Um foco de visão que pode ser definido como totalmente literário, descrito da seguinte forma: ‘‘As memórias da minha infância são focalizadas, de vez em quando, não como se tivessem sido por intermédio dos olhos de um menino, mas como que refletidas através de uma objetiva de câmera de filmar, com um desses maravilhosos mecanismos contínuos, uma grua ou guindaste que permitisse ao objeto ser visto como se tivesse dois metros de distância, focalizando de cima para baixo da altura de um jogador de basquete agigantado’’.
Em ‘‘Dia L’’, novela que abre o livro, William Styron narra a experiência de Paul vivida no final na Segunda Guerra Mundial como integrante de um grupo de fuzileiros navais americanos prestes a invadir Okinawa, Japão. Aos vinte anos de idade, Paul está sedento para matar, para vencer o inimigo, disposto a qualquer coisa para vencer a guerra. Mas quando o momento da batalha se aproxima, seu interesse pela guerra apaga-se. A cada minuto tudo perde mais e mais o sentido.
Intensidade A segunda e terceira histórias, ‘‘Shadrach’’ e ‘‘Uma Manhã em Tidewater’’, possuem uma unidade maior, uma intensidade arrebatadora. ‘‘Shadrach’’ narra, pelos olhos de Paul aos dez anos de idade, a volta de um escravo a Tidewater para morrer nas terras em que nasceu. Com quase cem anos de idade, o negro Shadrach anda meses e meses atravessando estados guiado pela intuição até encontrar a fazenda em que nasceu. Seu desejo é ser enterrado e ali, ao lado de seus antepassados, mas a polícia proíbe tal ato. O impasse umedece os olhos do garoto: ‘‘Agachado debaixo da varanda, senti uma dor abrupta e sufocante. Uma suave lufada de vento soprou da floresta e fiquei arrepiado quando tocou minha face, chorando por Shadrach e Mr. Dabney, pela escuridão e a pobreza, e por todas as injustiças humanas turbilhonando à minha volta em tempo e lugares que não compreendia. Como que para livrar-se de meu cruel mal-estar, comecei a contar vaga-lumes piscando no ar noturno. Dezoito, dezenove, vinte...’
Em ‘‘Uma Manhã em Tidewater’’, novela que dá título ao livro, Paul aos treze anos de idade, assiste o longo sofrimento da mãe corroída pelo câncer ao mesmo tempo em que vive a experiência do primeiro emprego, entregador de jornal. Conflitos chegam a cada manhã, o patrão explorando garotos justificado por crises econômicas, o pai brigando com a ciência por ela não conseguir amenizar as dores da esposa e batendo na religião por falar em nome de deuses mesquinhos que adoram o sofrimento humano, os negros sendo maltratados, etc. Tudo numa manhã quente de verão, enquanto a mãe dá seu último suspiro: ‘‘Cada um de nós percebe os seus meios de escapar ao insuportável. Às vezes podemos fazer de conta que não existem’’.
(M.L.)
• Uma Manhã em Tidewater , de William Styron, Editora Rocco, tradução de Júlio Bandeira, 136 páginas, R$ 19,50.

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