Dois nacionais na cidade, em salas distantes. Bom para todos, em especial para a sempre debilitada saúde do cinema brasileiro, com ou sem processo de retomada. Nas telas, o Brasil da maioria excluída e discriminada social, econômica e culturalmente, segundo a ótica do veterano Cacá Diegues em ''Deus é Brasileiro''. E o Brasil das minorias discriminadas, sexual, racial, social, econômica e culturalmente, segundo a ótica do estreante Karim Ainouz em ''Madame Satã'', lançamento a partir de hoje somente em Londrina (veja a programação nesta página).
Verdades e mitos sobre a trajetória de ''Madame Satã'' no Festival de Cannes do ano passado. Inicialmente previsto para a Semana da Crítica, segmento paralelo ao festival destinado a descobrir novos talentos e respectivas propostas, o filme acabou ganhando maior visibilidade ao ser promovido para a mostra paralela mais importante, ''Un Certain Regard''. Para esta decisiva mudança de endereço e de enfoque, com certeza pesou a presença de Walter Salles no júri principal de Cannes-2002. O prestígio internacional do diretor de ''Central do Brasil'', aliás, foi ainda responsável pelo tratamento vip dado a ''Cidade de Deus'', com o feliz desdobramento que todos conhecem. Salles e a sua Videofilmes são os produtores dos dois filmes. A porção mitológica fica por conta da divulgação, aqui no Brasil, de um hipotético escândalo durante as projeções no Palais por conta da ousadia de uma sequência de relação homossexual, com gente deixando a sala de projeção na metade. Pura ficção. A este ponto, celebrando este ano um cartel de 66 edições, impossível pensar em qualquer imagem que possa melindrar o público especializado que frequenta a Croisette. A não ser, claro, cinema de má qualidade, o que não exatamente o caso de Cannes.
Outra verdade, esta diretamente relacionada ao roteiro do filme. Alguns críticos franceses e italianos saíram da exibição querendo saber quem era Madame Satã. E com razão. Para se informar exatamente, tiveram que recorrer às sinopses distribuídas à imprensa porque a história, escrita e contada por Karim Ainouz, não quis saber da persona Madame Satã quando ela de fato foi assumida por João Francisco dos Santos, depois de seus últimos dez anos na prisão. O filme é centrado somente nos primeiros tempos da trajetória de João Francisco dos Santos, morador do bairro boêmio da Lapa no início do século passado, negro alto e musculoso, malandro ético à sua maneira, exímio capoeirista, homossexual assumido, travesti, cozinheiro, cantor, transformista - uma drag queen pioneira - e pai adotivo de sete crianças. Personagem explosivo e complexo, amante devotado e generoso, o altivo João teria sempre sérias diferenças com a polícia - cumpriu ao todo nada menos que 27 anos e 8 meses de prisão por acusações que incluíam de vadiagem a homicídio.
O filme é bom e tem suficiente força narrativa, embora ao final deixe uma lacuna que o espectador deverá preencher longe do cinema. Ainouz optou por uma fatia da história, realizando uma cinebiografia apenas parcial. Bem resolvido é a retrato da então emergente cultura afro-brasileira urbana e vibrante, num Rio de Janeiro vivendo o incerto período que se seguiu à abolição da escravatura no Brasil. E ainda melhor a construção do personagem central, encarnado com impressionante entrega e sinceridade pelo novato Lázaro Ramos. O recado anti racista e anti homofóbico de ''Madame Satã'' ganha traços ainda mais profundos e dramáticos por obra de um jovem ator que já chega completo ao cenário artístico brasileiro.

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