Um retrato amargo da vida
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de maio de 1999
Celso Mattos 
Para quem está cansado da onda de filmes politicamente corretos que Hollywood despeja o ano inteiro sobre nossas cabeças, deve experimentar O Oposto do Sexo, que acaba de chegar às locadoras. O filme, que marca a estréia na direção de Don Roos, roteirista de Mulher Solteira Procura-se, é um retrato amargo do adolescente médio americano - intolerante, ignorante e preconceituoso.
É, na verdade, uma sátira sobre o puritanismo calvinista que faz parte dos anos 90 na América. Debochado, desavergonhado e deliciosamente divertido, O Oposto do Sexo faz uma revisão crítica de uma América moderna, cínica e brutal, que glorifica o individualismo.
A ótima Christina Ricci, vencedora do Satélite de Ouro de Melhor Atriz em Comédia, é a jovem Dedee Truitt. É ela quem narra o filme, dando um tom de humor e deboche. Dedee é alienada, perversa, preconceituosa, manipuladora, egoísta e mentirosa - ela engana inclusive o próprio telespectador. Depois de fugir de casa, ela pede asilo ao irmão gay Bill (Martin Donavan, ator preferido do diretor cult Hal Hartley), que mora com um rapaz bem mais jovem. Ignorando o significado da palavra ética, ela seduz o namorado do irmão, faz o ingênuo acreditar ser o pai de uma criança que traz na barriga e ainda o convence a fugir com o dinheiro roubado do irmão. Incapaz de perceber diferenças entre as pessoas, Dedee vê o mundo com olhos totalitários.
É através deste personagem predador e perverso que O Oposto do Sexo faz uma crítica impiedosa à cultura norte-americana que incentiva o individualismo. Nos Estados Unidos você é um vencedor ou um fracassado, dependendo do dinheiro que acumulou ou da capacidade de desprezar o próximo. Dedee é assim. Faz discurso contra os gays, não admite ser contestada e é assumidamente pérfida.
Quer destruir tudo o que está a sua volta porque não vê nada de sagrado na relação amorosa. Ela não é representante do ceticismo global. É o próprio ceticismo. Recusa-se ao diálogo com suas vítimas e rejeita até mesmo a criança que gera. O Oposto do Sexo é assim: ácido, mordaz, intolerante, totalitário e maquiavélico. Um grande filme, com ótimas interpretações e um roteiro que é uma porrada no estômago.
Outro personagem crucial no filme é Lúcia, a irmã de uma antiga paixão do homossexual Bill, que morreu vítima de Aids. Interpretada magnificamente por Lisa Kudrow (da série Friends), ela é uma figura que transita entre o cômico e o trágico, o patético e o heróico. Apesar de ser desprezada por todos, é ela quem tenta pôr ordem no caos.
Este é o tipo de filme que merece ser visto duas ou mais vezes. Porém, com olhos bem abertos. É um dos poucos a mostrar cenas devastadoras de um furacão sem usar efeitos especiais. É uma forte crítica às convenções e ao imobilismo social. Um filmaço! Lançamento da Columbia TriStar. Duração: 106 minutos.


