Um resgate de suas tradições e um louvor à sua terra. É desse modo que Yash Yoshi Doi, 85 anos, encara um costume que não abandona há mais de 30 anos: o hábito de cantar.
Nascido em 1915, em uma pequena cidade no interior do Japão, Doi veio para o Brasil em 1929, quando contava 14 anos. Acomodou-se na região próxima à capital paulista e foi logo trabalhando na lavoura: ‘‘Trabalhei em colônia, em fazenda, em tudo quanto é lugar’’, relembra.
Em 1964, mudou-se para Assaí, novamente à procura de um bom solo para trabalhar. Em apenas dois anos se acostumou à cidade e se encorajou a cantar: ‘‘Meus pais nunca cantaram. Fui o primeiro. Hoje dois dos meus filhos também cantam e também são premiados’’. Em Assaí, abriu uma fábrica de sorvetes e iniciou sua coleção de troféus, que hoje, após 30 anos cantando, preenche duas estantes em sua sala de visitas.
Após a construção da fábrica, seo Yoshi Doi se cansou e resolveu se aposentar. Mudou-se para Ibiporã e desde então se dedica exclusivamente aos ‘‘treinos’’, como ele mesmo prefere chamar seus ensaios.
Nessas duas décadas passadas em Ibiporã, cidade que ele diz amar por ser onde está passando o fim de sua vida, Yoshi Doi adquiriu outro ‘‘vício’’: ‘‘Todos os dias escrevo poemas hai-kai’’. Ele até participa do Tanka-Kai, um grupo que se reúne uma vez por mês em Londrina para ler e discutir a literatura hai-kai.
Doi gosta de cantar especialmente músicas do folclore japonês, mas recorda emocionado a época em que cantava clássicos da velha guarda brasileira: ‘‘Quando era moço eu cantava ‘‘Saudade de Matão’’, mas hoje eu não lembro a letra. Cantar em brasileiro é muito custoso’’. Entre os cantores nipônicos, tem especial predileção por Murata Hideo.
O hábito de cantar vem desde pequeno: ‘‘Com seis, sete anos eu cantava bastante.’’ Mas o que teria motivado Yoshi Doi a cantar? ‘‘Não sei, acho que é tudo meio natural’’.
O premiado cantor já se apresentou em diversas cidades do interior de São Paulo e do Paraná, incluindo as duas capitais. Sua técnica é simples: escuta as músicas em um antigo aparelho de som portátil e logo vai aprendendo a letra e o tom: ‘‘Nunca tive professor’’. Além dos ensaios caseiros, ele frequenta um clube próximo à sua casa em que canta com amigos: ‘‘Todo sábado eu vou treinar. A partir de maio começam os campeonatos’’.
Nesses mais de 30 anos cantando, Yoshi Doi aponta uma premiação em especial: um menção honrosa concedida à sua carreira em maio do ano passado pela Colônia Japonesa de Bandeirantes, inédito no país: ‘‘Tem um igual no Japão, mas no Brasil eu sou a único que recebi o prêmio’’ revela entusiasmado o senhor de 85 anos que ainda espera cantar por muito tempo: ‘‘Eu plantei; agora quero colher’’.

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