Francelino França e
Jackeline Seglin
De Londrina
Os 500 anos do descobrimento do Brasil se transformaram em motivo para incontáveis projetos de resgate da memória nacional. Um dos trabalhos que recuperam um pedaço do Brasil colonial foi elaborado pelo professor Nestor Goulart Reis Filho, titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), e foi denominado ‘‘Imagens das Vilas e Cidades do Brasil Colonial’’. O projeto é composto por mais de mil imagens retiradas de originais, de vistas e plantas de vilas e cidades entre 1585 e 1822.
A pesquisa levou mais de 40 anos para ser concluída e a Volkswagen do Brasil se interessou em patrocinar o projeto, orçado em R$ 1 milhão, composto de um livro, uma exposição fotográfica e cinco mil kits de pequenas exposições com 40 fotos (acompanhadas de CD-ROM), que integrarão acervos de escolas públicas, museus e bibliotecas de todo o País.
A importância desse trabalho é colocar à disposição do público em geral e estudantes informações históricas ainda pouco conhecidas sobre o Brasil, retratando cerca de 100 cidades brasileiras, entre elas, Rio de Janeiro, Salvador, Santos e a cidade de Goiás. Nestor Reis buscou os originais em bibliotecas de Paris, Nova York, Porto e Lisboa.
‘‘Essa documentação visual do País é um precioso patrimônio cultural, que deve revolucionar o ensino de nossa história, que vem sendo contada através de documentos escritos, que falam menos do Brasil urbano e mais do Brasil rural’’, explica o autor do projeto. A publicação dos desenhos originais das vilas e cidades do Brasil Colonial ajudará a conhecer realmente as características do País naquela época.
Muitos pesquisadores acreditavam não ter existido planejamento urbano no Brasil Colônia. ‘‘Imagens das Vilas e Cidades do Brasil Colonial’’ vêm comprovar a existência dos planos de vilas e cidades daquela época, traçados por engenheiros militares.
Na segunda metade do século 18, eram frequentes os planos para padronizar as fachadas das casas, de forma a uniformizar o visual das ruas. Isso explica as semelhanças entre ruas e casas de cidades tão distantes quanto Belém (PA), São Luís (MA) e Rio Grande (RS).
Em entrevista à Folha2, por telefone, o arquiteto e sociólogo Nestor Goulart Reis explicou que o livro terá cerca de 400 páginas com 330 imagens – todas comentadas – de plantas e vistas de aproximadamente 100 localidades do período colonial. Para a exposição fotográfica, com 100 imagens, e a coleção de cinco mil painéis com guias (kit), Nestor Reis selecionou vistas das localidades e algumas plantas que provassem existir planejamento urbano na época. ‘‘Esse material permitirá visualizar e trabalhar o Brasil urbano.’’ Os kits serão distribuídos a partir de novembro, para que em março do ano que vem as escolas tenham o material no início das aulas.
Os originais pesquisados por Nestor Reis estavam espalhados pelo mundo. No início da pesquisa, o professor não imaginava a dimensão nem o tempo que seria gasto neste trabalho. ‘‘Comecei a estudar a história da arquitetura e urbanismo do Brasil. As imagens que resgatei serviram de documentos básicos e estudos para minha tese que provava haver planejamento urbano no Brasil Colonial’’, lembra. Ao reunir e reproduzir as imagens, ele percebeu que valeria a pena fazer um material completo sobre o assunto.
Em sua ‘‘garimpagem’’, Nestor Reis descobriu imagens curiosas, como o desenho mais antigo – uma planta de 1756 da cidade de Belém, fundada em 1616. ‘‘Na Holanda, acharam uma planta de 1640! São desenhos incríveis que mostram aspectos de nossas cidades que nem imaginávamos que existissem.’’
Dois historiadores e três fotógrafos, além de pesquisadores, viajaram com Nestor Reis para fazer os estudos e as reproduções fotográficas. Ele encontrou uma série de dificuldades para chegar aos originais. ‘‘Uma delas, por exemplo, é levar até quatro anos para achar um desenho específico, a partir de uma informação ou referência. Mas tivemos surpresas muito boas, como as plantas de um quilombo com planejamento urbano feito pelos escravos.’’ Segundo o autor, quase nenhum original havia sido foi publicado em cores. ‘‘Sem contar que boa parte estava esquecida e nunca foi publicada.’’
Para dar andamento ao projeto, Nestor Reis teve o apoio da USP, do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e, desde 1964, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). ‘‘Sem eles não conseguiria realizar o projeto. O custo total, incluindo pesquisadores e pessoas que trabalharam comigo, corresponderia a um ou dois milhões de dólares.’’ Apesar do patrocínio da Volkswagen do Brasil, ainda restam duas cotas a ser negociadas, no valor de R$ 220 mil cada uma, para completar a execução do projeto.
O lançamento do livro e da exposição fotográfica está previsto para o ano que vem. No entanto, projetos-piloto já estão sendo realizados em escolas de São Paulo, que recebem quatro conjuntos de painéis composto por 10 imagens grandes para a exposição e 10 menores para os professores. ‘‘Estamos obtendo um resultado altamente positivo, que despertou o interesse de alunos para diversas áreas, como geografia, história, etc.’’ Com este projeto, Nestor Reis quer que as novas gerações cresçam sabendo da importância do Brasil Colonial. O professor pretende dar continuidade ao trabalho. ‘‘Este ainda é o primeiro esforço’’, antecipa.Professor da USP recupera imagens de mais de mil plantas e vistas originais de cidades criadas entre 1585 e 1822
ReproduçãoVista de Santos (1765 - 1775)ReproduçãoCidade de Goiás (Goiás velho), 1803ReproduçãoVista de Fortaleza, 1803ReproduçãoVista de Recife, 1759Projeto orçado em R$ 1 milhão teve patrocínio da Volks

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