ReproduçãoBob Dylan faz show no Brasil este mês e as gravadoras aproveitam para lançar discosPara capitalizar uma anunciada vinda de Bob Dylan ao Brasil este mês, a gravadora Sony redescobre em seu baú o álbum triplo ‘‘The Bootleg Series Volumes 1-3’’, lançado em 91, num formato bem mais pomposo que o caixotinho atual.
Já se tratava, na origem, de capitalização de gravadora. O apanhado de 58 gravações raras ou inéditas do artista norte-americano veio ao mundo como manobra para tentar refrear o comércio de piratas (os ‘‘bootlegs’’ a que o título se refere) que borbulha à sua volta.
A Sony brasileira leva sorte adicional: a edição da caixinha coincide com a boa acolhida de ‘‘Time Out of Mind’’, álbum mais recente de Dylan, entre os votantes do prêmio musical Grammy. Não precisava nada disso. Se gravadoras pensassem a sério em algo além de dinheiro, ‘‘The Bootleg Series’’ seria um lançamento sensato, só. Sabe-se, por inúmeros exemplos, que takes alternativos, versões demo e gravações ao vivo quase sempre deixam a desejar. Pode até ser o caso dos de Dylan, mas aqui se fala de história.
Concorre para isso o fato de que 38 das faixas são (ou melhor, eram, em 91) inéditas em álbuns oficiais. A maioria foi retirada de sessões de gravações de seus discos e preteridas nos lançamentos. O exemplo mais expressivo é ‘‘Talkin John Birch Paranoid Blues’’, que a gravadora ejetou na última hora do álbum ‘‘The Freewheelin Bob Dylan’’ (63), devido a alusões ao comunismo e a Hitler.
Dessa fase - 62/63 - se extrai o melhor filão do pacote. Até a sexta faixa do segundo CD, o que se tem é um músico folk desacompanhado, alternando vocal, violão, harmônica, um ou outro piano. Tudo muito simples, tudo muito rústico -um retrato do primeiro Dylan.
Avizinha-se já o propalado poeta, mas também o artista quadrado que ele nunca deixou de ser. O ‘‘politicamente correto’’ já avança no jovem Dylan, não raro domado por alguma modalidade individualista de espírito patriótico, familiar e/ou cristão que nem a frequente ironia pode abafar. ‘‘She’s Your Lover Now’’, que ficou de fora do festejado ‘‘Blonde on Blonde’’, rende evidências de que a mitologia que localiza nessa fase o melhor de Bob Dylan não parece nada infundada.
‘‘I’ll Keep It with Mine’’, criada em 64 para Nico, aparece na voz fanha de Dylan como revelação a mais, profunda e descomprometida (‘‘não posso fazer nada/ se você achar que sou estranho/ se digo que não amo você pelo que você é/ mas pelo que você não 钒) - e registrada (coincidência?) em 65. Bem, daí adiante entram os anos 70, irregulares, e os 80, mais irregulares ainda. O lote de três canções que ficaram de fora do medonho álbum ‘‘Shot of Love’’ (81), em especial, é pura melancolia.
No cômputo, o contraste entre o Dylan de antes e o de agora evidencia, entre altos e baixos, ainda um artista linear - um gênio, diriam os fanáticos, mas tal afirmação é questionável. Para ouvidos brasileiros, é muito caubói e gaita a emoldurar a decantada poesia dylaniana. Tem gente que gosta.

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