Um repórter cheio de histórias
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de agosto de 2011
Ana Rita Martins <br>Agência Estado 
São Paulo - Preocupado em publicar a notícia com a velocidade necessária, muitas vezes o jornalista esquece de humanizar a história que está contando, de retratar os personagens que entrevistou e os fatos que apurou com profundidade. Para o repórter Christian Carvalho Cruz, é possível fazer jornalismo de um jeito diferente. As aventuras e reviravoltas da profissão de Christian entre os anos de 2009 e 2011 estão no livro ''Entretanto, Foi Assim que Aconteceu''. Na obra, o autor questiona verdades tidas como sagradas no jornalismo.
O texto ''Novembro de 2009'' vem a calhar como exemplo de que certas premissas do jornalismo ou estão ultrapassadas ou precisam ser revistas. O jornalista tinha ido ao Rio de Janeiro para descobrir quem era o homem que amanheceu morto dentro de um carrinho de supermercado, no Morro dos Macacos. Mas ele não conseguiu localizar os parentes. Não obteve nenhuma informação segura na favela. Christian também foi ao IML. E ao Instituto Félix Pacheco, onde estão as digitais de todos os cariocas e fluminenses. Ele diz ter procurado até o carrinho de supermercado, no Instituto de Criminalística Carlos Éboli. Nada.
Todas as pessoas com quem ele conversou não quiseram dar depoimentos para a reportagem. Diante disso, o normal seria concluir que não existiria reportagem a ser publicada. Mas Christian Cruz provou que não era bem assim. E escreveu um texto que falava justamente do quanto a violência no Rio de Janeiro é anônima. Sem nome dos mortos, inominada até por quem viu.
Mas quebrar a premissa de que os entrevistados têm de ter nome na reportagem requer análise caso a caso. Na matéria do Rio de Janeiro, fazia sentido abrir exceção. Mas na intitulada ''1 milhão na 25'', não. Nessa reportagem, que fala do comércio da Rua 25 de Março, Christian utiliza o jeito que os ambulantes falam para trazê-los ao leitor. Mas a fala de um deles - ''Ô, amigo! Isso é 25 de Março. Original, aqui, só meus olhos verdes'' - teria mais credibilidade com a identificação do sujeito. Ainda que o entrevistado não queira se revelar, é papel do repórter achar outro tão interessante quanto e que se releve. Mas o repórter não se preocupa se alguém colocá-lo em xeque por causa disso e diz que a sua apuração é a sua credibilidade. Essas ressalvas, porém, não tiram o brilho do livro.
CAPACIDADE DE OBSERVAÇÃO
Um dos pontos altos de cada matéria é a capacidade de observação do autor. Num perfil do apresentador Datena, por exemplo, o leitor fica sabendo que ele adora mandar as pessoas se catarem. Em outro texto, o jornalista revela que Elza Soares tem os modos de uma diva do passado, com direito a cabeleireiro e maquiador particulares. Chama a atenção, também, o fato de que nem todas as matérias tinham relação com alguma notícia - o ''gancho'' no jargão jornalístico - quando foram publicadas. ''É melhor uma reportagem boa sem gancho do que uma mais ou menos com gancho'', diz. Ele fala também que um bom trabalho requer tempo. ''Ir encontrar os entrevistados é fundamental para sair das obviedades que têm sido publicadas'', diz. ''Infelizmente, as circunstâncias têm levado os jornalistas a ficar presos nas redações, entrevistando por telefone. Assim, o jornalismo empobrece'', completa.
SERVIÇO
Entretanto, Foi Assim que Aconteceu
Autor - Christian Carvalho Cruz
Editora - Arquipélago
Preço - R$34


