O frei Antônio Moser faz o lançamento hoje do livro ''O Enigma da Esfinge - A Sexualidade'', em Londrina, pela Editora Vozes. A idéia de se aprofundar sobre esse tema surgiu durante o período em que o frei fazia doutorado. Depois de lançar duas obras sobre o pecado, ele aborda agora a sexualidade, que considera ''energia que movimenta a vida humana''. Para o frei Moser, aconteceram muitas evoluções no campo das ciências que a religião não percebeu.
Moser lecionou em diversas instituições sobre sexualidade e possui um trabalho pastoral de repercussão, tendo construído mais de 13 igrejas. Essa conjunção de interesses o levou a escrever a obra, basicamente respondendo às questões mais recorrentes durante o contato pastoral. O ponto de partida foi o mito da Esfinge, que desafiou o Édipo. A sexualidade apresenta-se cheia de enigmas e se constitui num dos mistérios mais fascinantes e enigmáticos da humanidade. Quanto mais julgamos estar próximos de desvendar seus segredos, tanto mais desafiante ela se torna.
''A partir do momento em que o homem entender e harmonizar a sua sexualidade, ele vai se sentir mais feliz. A sociedade de hoje está muito brutal, o mundo perdeu a ternura'', avalia Moser. Para ilustrar essa afirmação, ele cita George W. Bush e Ariel Sharon, ''dois animais incapazes de amar, apesar de haver outros aspectos envolvidos nas guerras''.
O autor faz uma abordagem da sexualidade bem diferente da abordagem tradicional da Igreja Católica. Na obra, ele destaca a evolução no campo das ciências, valoriza o feminino e aborda temas como homossexualismo e masturbação. Além disso, contempla ao mesmo tempo as pessoas na sua individualidade e as pessoas em sociedade, nos seus múltiplos relacionamentos.
Moser também trata a questão de gênero não como um apêndice, mas como uma categoria indispensável para a compreensão da sexualidade e do processo de humanização, tanto do homem quanto da mulher. Apesar de o século passado ter sido marcado por intensas revoluções sexuais e comportamentais, as teorias morais em geral não se adaptaram às mudanças, muito menos no que se refere à sexualidade.
Frei Antônio Moser tem mestrado na França e doutorado em teologia moral na Itália. Foi professor convidado em Lisboa, Bogotá e Berkeley (EUA). Percorreu mais de 130 regiões do Brasil, proferindo conferências para bispos, religiosos, médicos e professores. Autor de 10 livros, o religioso leciona bioética em Petrópolis (RJ), além de atuar como diretor-presidente da Editora Vozes. Também profere conferências em diversas regiões do Brasil e da América Latina. A Folha2 conversou com o frei Antônio Moser sobre esse enigma energético que fascina tanto o ser humano. A seguir trechos do bate-papo.
Não é muito comum um religioso abordar o tema da sexualidade em livro, por que a opção de aliar esse tema à Pastoral Familiar?
O trabalho da teologia é o de ajudar as pessoas a descobrirem os caminhos da realização. Eu percebo hoje a biologização do sexo, a tirania do prazer. O homem está desencantado com o sexo muito cedo. Esse trabalho é para ajudar a redescobrir o encantamento da sexualidade. Nós (os religiosos) não renunciamos à sexualidade, que é uma energia, não renunciamos à amizade, nem ao amor. Os religiosos canalizam essa energia querendo o bem, cultivando a amizade, dedicando-se ao outro. Isso é uma vocação.
Então, qual a renúncia que os religiosos fazem?
A renúncia se refere à expressão da genitalidade, à possessividade, ao amor superficial.
O sétimo capítulo do livro ''O Enigma da Esfinge'' tem como título ''como acolher pastoralmente as pessoas homossexuais'', o que isso significa exatamente?
Acolhemos como pessoas humanas, mas não significa admitir comportamento. Essa é uma questão afetiva. A pessoa pode ter uma tendência homossexual e não ter comportamento. Acho importante o homossexual procurar sua identidade. Há muitos homossexuais superficiais, que não são homossexuais de verdade. Isso devido à onda gay que existe hoje.
Por que o senhor afirma que o mais importante é aproximar evangelicamente dos homossexuais que apresentam ''com certeza uma 'alma' diferente''. O que significa alma diferente?
Eu usei a expressão alma diferente como sinônimo de sentimento diferente, maneira de ver a vida diferente. O homem só se liberta dos preconceitos quando é capaz de restituir a palavra ao silenciado. É preciso estar mais disposto a mais ouvir do que falar, a mais aprender do que ensinar.
Qual a análise que o senhor faz dos casos de acusação de pedofilia contra religiosos de todo o mundo? Nunca se falou tanto no assunto, por quê?
Eu concordo com o Papa João Paulo II que definiu a pedofilia como crime, pecado e vergonha. É um desvio afetivo/sexual. Mas cerca de 90% dos casos de pedofilia acontecem dentro de casa. No Brasil, foram denunciados mais ou menos 10 casos contra os padres. Mas há muito equívoco no uso da palavra pedofilia. Houve uma denúncia contra um padre que se envolveu com uma garota de 15 anos. Não estou justificando, mas uma garota de 15 anos não é mais uma criança. Os padres com casos comprovados foram punidos e depostos de suas funções.
Serviço: ''O Enigma da Esfinge: A Sexualidade'', de Antônio Moser, Editora Vozes, 288 páginas. Preço: R$ 26,00. O lançamento em Londrina acontece hoje, às 14h30, na nova loja da livraria da Editora Vozes, na Rua Senador Souza Naves (158), que será inaugurada na ocasião.

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