Uma frase resume o sentimento dos nordestinos em relação a um de seus grandes homens: ''Luiz Gonzaga é uma religião pra gente''. É apenas o trecho de muitos depoimentos contidos em ''As Sanfonas de Lua'', que a TV Cultura exibe hoje, às 21 horas. O especial é uma deferência a Luiz Gonzaga, que teria completado 90 anos de existência ontem. Mesmo com declarações afetuosas, o documentário não resvala em sentimentalismos exacerbados e nem mostra olhos encharcados de lágrimas, expedientes vastamente explorados em datas redondas de figuras ilustres. Ao contrário, usa linguagem direta, depoimentos enxutos, sem malabarismos visuais só gente alegre e, principalmente, admiradores com algo a acrescentar à figura mítica do Rei do Baião.
Dirigido por Mário Rezende e com duração de quase 54 minutos, ''As Sanfonas do Lua'' enfoca um lado pouco conhecido, ao menos no Sul do País, de Luiz Gonzaga: a de incentivador de talentos. Em vida, distribiui pelo menos 300 sanfonas a pessoas que, ao seu ver, possuíam futuro promissor como artistas e instrumentistas. ''Ele não podia ver um sanfoneiro com uma sanfona ruim'', atesta um dos depoentes, José Reginaldo Silva. Gilberto Gil, admirador confesso de Gonzagão um dos responsáveis por sua formação musical, é contudente quanto à preocupação do homenageado em difundir o instrumento e, consequentemente, a música nordestina: ''Ele tinha noção da dificuldade do povo nordestino e exercia isso de forma objetiva''.
Gil lembra que um dos contemplados foi Dominguinhos, não de hoje apontado como sucessor natural de Luiz Gonzaga. Tinha ele oito anos de idade quando o velho Lua, apelido carinhoso, o viu tocando e o presenteou com o instrumento. Entre lembranças carinhosas, Dominguinhos diz taxativo. ''Sanfona é cara''. Oswaldinho do Acordeon foi outro ungido. A lista de célebres instrumentista é imensa vai desde conhecidos como Waldonys, Zé de Benona, Arlindo dos Oito Baixos a artistas anônimos.
Se as sanfonas distribuídas dão o mote, o documentário tem como pano de fundo o festival realizado todo mês de dezembro, no Parque Asa Branca, em Exu cidade natal do ''Rei do Baião''. Lá, anualmente, em dezembro, sanfoneiros de várias partes se juntam para tocar, cantar e fazer o poeirão levantar ao som do xote, xaxado e, claro, baião. É quando vozes e juntar de corpos mantêm viva a memória daquele homem que se vestia como lampião com gibão de vaqueiro e chapéu com estrelas e fez e ainda faz o Brasil cantar sucessos como ''Riacho do Navio'', ''Respeita Januário'', ''Xote das Meninas'', ''Assum Preto'', ''Riacho e, claro, ''Asa Branca'' para muitos o hino oficial do Nordeste.
Para realizar ''As Sanfonas do Lua'', o diretor Mário Rezende e companhia levaram dois anos localizando e entrevistando ''discípulos'' de Gonzaga, em diversas cidades do Sudeste e Nordeste. Há a participação de familiares, como o do sobrinho Joquinha Gonzaga e da irmã, Chiquinha Gonzaga. Esta última, aliás, uma figuraça. Conta da paixão à primeira vista do irmão pelo fole de oito baixos do pai, o famoso sanfoneiro Januário. A mesma paixão que ela nutria pelo instrumento. ''Mas a mãe falava que sanfona não era coisa de mulher'', lembra Chiquinha.
O irmão, como lembra, acompanhava o pai nos forrós tinha oito anos, mas não tinha um bom instrumento. Belo dia, um coronel o presentou com uma sanfona. ''Ele ficou tão feliz que desmaiou'', recorda-se. Entre depoimentos, intercalam-se fotos e imagens pinçadas do arquivo da TV Cultura. ''As Sanfonas do Lua'' é, sobretudo, uma homenagem consistente que foge aos clichês. Dinâmico e objetivo, finca-se num lado pouco explorado pela mídia em relação a Luiz Gonzaga o de descobridor de músicos. Um rei justo sabe como tratar seus súditos.
''As Sanfonas do Lua'', especial em comemoração aos 90 anos de Luiz Gonzaga. Direção, pesquisa e roteiro de Mário Rezende. Hoje, às 21 horas, na Tv Cultura.

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