A vida de Mário Bortolotto em São Paulo vale bem mais que um Chevrolet. Nessa temporada, o dramaturgo e ator londrinense Mário Bortolotto solidificou sua logomarca no circuito teatral na paulicéia. A Associação Paulista de Críticos de Artes – APCA – acaba de eleger seu nome como melhor autor pelo conjunto da obra, já resvalando em 30 peças teatrais. Geralmente, esse tipo de reconhecimento acontece com autores com mais anos de estrada.
No último dia 19 de dezembro, o nome Mário Bortolotto emergiu novamente da alta cúpula da crítica ao ser indicado Prêmio Shell na categoria autor pela peça ‘‘Essa Vida Não Vale Um Chevrolet’’. Além disso, a Escola de Artes Dramáticas de São Paulo incluiu ‘‘Essa Vida....’’ no rol de textos para a prévia do Vestibular 2001 de Artes Cênicas. Nesse final de ano, uma verdadeira corrida de vestibulandos aconteceu atrás da sugestiva peça do jovem autor. Encontraram um texto em que irmãos desajustados roubam carros, mesmo assim tentam levar uma vida em família. A barra de encarar a morte do pai e a insanidade mental da mãe só mesmo em conjunto.
Definitivamente, o ano de 2000 repercutiu positivamente na carreira de Mário. Ele peitou a maratona teatral com 14 peças no porão do Centro Cultural São Paulo, de 18 de julho a 8 de outubro. Sem patrocínio, apenas com algumas permutas, duas peças foram levadas ao palco de terça a domingo, quando a temporada normal acontece de quinta a domingo.
O público tão diverso quanto numeroso conheceu figuras singulares de um universo ficcional sem concessões. Vida escoradas na ausência de regras, regadas a bourbon, cativaram a selva de pedra. Ao som de blues, ladrões, psicopatas, auto-exilados, bêbados, vagabundos e politicamente incorretos se alternavam no porão. Dentre os espetáculos que fizeram o rodízio no Centro Cultural estavam ‘‘Felizes Para Sempre’’, ‘‘Fuck you, Baby’’, ‘‘Medusa de Rayban’’, ‘‘À Queima-roupa’’, ‘‘É Bonita a Vista Aqui em Cima’’. ‘‘Foi super-proveitoso e divertido. A gente acabou ganhando prestígio’’, disse Bortolotto, por telefone.
Depois da overdose no porão, Bortolotto aterrisou na Bela Vista, no badalado Teatro Sérgio Cardoso, onde cumpriu temporada até o dia 17 de dezembro. No elenco de ‘‘Essa Vida Não Vale um Chevrolet’’, além de Mário, Jairo Matos, Fernanda D’Umbra, Joeli Pimentel, Amadeu Lamonier, Gerson Meireles, entre outros, apresentaram um teatro naturalista, procurando desmistificar a interpretação.
De julho a dezembro, quase 40 pessoas, entre atores e técnicos, no espírito da ‘‘brodagem’’, levaram à cena a literatura marginal de Bortolotto, impregnada com uma realidade social perversa, com uma dramaturgia que não recompensa a platéia. Nesses últimos seis meses, talvez mais que os espetáculos, a cena teatral paulistana foi invadida por uma trupe pautada no inconformismo. Causou espanto na rotina viciada dos empreendedores culturais da área.
O dramaturgo, ator, ficcionista, poeta e provocador cultural também acaba de escrever o monólogo ‘‘Gravidade Zero’’, para o ator Rodrigo Mateus, com estréia prevista para o início de 2001. ‘‘É sobre um cara que não consegue manter os pés no chão nunca’’, sintetiza. Além disso, o documentário sobre a Mostra, realizado por quatro jovens cineastas, está em fase de finalização. Em outro projeto, Bortolotto está envolvido numa cooperativa cinematográfica , em que cada integrante terá seu projeto. ‘‘Eu pretendo filmar um texto meu’’, avisa.

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