Um psicanalista das palavras
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sexta-feira, 23 de abril de 1999
Francelino França 
O professor de língua portuguesa de maior projeção no Brasil definitivamente virou pop. Pasquale Cipro Neto tem um séquito de seguidores. Os brasileiros têm um fascínio pela língua portuguesa, querem saber, descobrir. Eles sabem que o código escrito não é o mesmo que o falado, constata Pasquale, enquanto mais de 1.000 professores, estudiosos e amantes da língua portuguesa o aguardavam para aquietar incontáveis dúvidas. Esses escravos da norma culta participaram anteontem do Salão de Idéias, um ambiente destinado aos debates com personalidades no I Salão Internacional do Livro de São Paulo.
Além do programa Nossa Língua Portuguesa na TV Cultura, Pasquale Cipro Neto possui dois programas de rádio e tem dois livros de gramática editados, enquanto outro está no forno. É recordista de vendas do CD-ROM solucionando dúvidas do nosso idioma. Pasquale não se intimidou em transformar-se num garoto-propaganda do McDonalds e vender milhões de BigMac. O que ele fala é lei, quando se trata de gramática.
Pasquale pode ser considerado um psicanalista da gramática, ao tratar de traumas e vícios de quem sofre de problemas com o português. Ele desmistifica a todo instante as agruras desse idioma considerado secreto a cidadãos semi-analfabetos, PhDs, crianças, técnicos, estudantes de cursinho e candidatos a concursos públicos. Não escapo em lugar nenhum, confessa Pasquale. Por ouvir perguntas tão díspares e sem utilidade na vida do brasileiro, é que ele critica a excessiva valorização da nomenclatura gramatical e da norma imposta cegamente no ensino da língua portuguesa.
Durante o Salão Internacional do Livro de São Paulo, Pasquale foi enfático ao se posicionar contra as torturas aos estudantes impostas pelos professores de português. O aluno precisa saber que sua linguagem é ótima, suficiente para que ele se comunique no dia-a-dia. Ele também precisa ter contato com outro padrão linguístico, com a cultura formal, afirma Pasquale.
O professor pop é favorável aos questionamentos, senão o ensino vira idiotice. O estudante, segundo Pasquale, precisa saber porquê e para quê serve o que é ensinado em sala de aula.O professor precisa valorizar o texto culto, sem histeria, defende. A valorização exagerada da nomenclatura gramatical é a razão da distância do aluno com a gramática. Tenho certeza disso, afirma.
Criticando o ensino da língua, Pasquale afirma que 100% das pessoas que passaram pela sala de aula aprenderam que numa sentença o sujeito é aquele que pratica a ação. Ele até ironiza e exemplifica com o chavão o menino é bom. Nesta oração, o sujeito é o menino. Mas na frase o livro é bom, qual é a ação que o livro pratica? Se o aluno soubesse que sujeito significa tema, assunto, ele saberia logo quem é o sujeito da frase, sentencia.
Sobre as milhares de dúvidas com as quais ele é bombardeado diariamente, uma que o deixou indignado foi solicitada num concurso público. Na prova era questionado o seguinte: Qual o feminino de peixe-boi?. Quem arriscou peixe-vaca perdeu a questão, é claro. O correto é peixe-mulher. (Mas peixe-mulher não parece uma sereia?)


